Ttulo: A Noiva Americana.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1985.
Ttulo Original: "Dollars for the Duke"
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
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Barbara Cartland
A noiva americana
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
LIVROS ABRIL
Romances com Corao
Caixa Postal 2372 - So Paulo

A noiva americana

O imenso gramado do castelo havia sido enfeitado com centenas de vasos de
flores. Guirlandas de fitas pendiam das rvores num festival de cores 
e... cafonice. Seldon, o duque de Otternburn, contemplava, profundamente 
angustiado, o cenrio de seu casamento. Sim, a farsa seria completa... 
Havia ele, o noivo, dono de um ttulo e de um castelo, mas sem um nquel 
no bolso. Havia a sogra, uma arquimilionria americana  procura de um 
nobre que trouxesse sangue azul para sua famlia plebeia. E a noiva? Dali
a alguns minutos, seus destinos estariam irremediavelmente unidos, e
Seldon se apercebia agora que sequer havia olhado o rosto suave e belo de
sua futura esposa...

Livros Abril.

Ttulo original:
"Dollars for the Duke"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1981
Traduo: Silvia Macedo
Copyright para a lngua portuguesa: 1985 Abril S. A. Cultural - So Paulo
Esta obra foi composta na Linoart Ltda. e impressa na Diviso Grfica da
Editora Abril S. A.



CAPITULO I
1882

- Trouxe-lhe todas as contas, como pediu, sr. duque disse o contador,
colocando um mao de papis sobre a escrivaninha do duque Seldon 
Otterburn.
Aps examin-los com ateno, Seldon suspirou, como se no pudesse 
acreditar em tudo o que acabara de ler. Permaneceu em silncio por um 
longo tempo. Desanimado, revirou algumas folhas e perguntou:
- Ser possvel, Fossilwaithe, que meu pai tenha contrado tantas
dvidas assim? Por acaso nunca ouviu seus conselhos, ou os de qualquer
outra pessoa?
- Posso lhe garantir, senhor, que, por vrias vezes, eu e meus colegas 
tentamos alertar seu pai para as consequncias de tantas dvidas, mas 
sabe o que ele chegou a me responder uma vez? Que eu me preocupasse 
apenas com os meus negcios!
Seldon concordou. Tinha certeza de que o contador dizia a verdade, pois 
lembrava-se muito bem do quanto seu pai detestava que algum tentasse se 
opor a qualquer um de seus propsitos.
Mais uma vez, olhou para aqueles documentos, desejando que, por algum 
milagre, desaparecessem.
- Bem, Fossilwaithe, o que voc acha que devemos fazer?
Seldon no percebeu, mas o contador o olhava penalizado, e suspirou antes 
de responder:
- Tenho pensado muito numa soluo para seu caso, senhor, mas, 
infelizmente, no encontrei nenhuma at agora.
Seldon recostou-se na poltrona.
- Ento, sejamos prticos, Fossilwaithe: o que posso vender?
E novamente, Fossilwaithe, o contador mais velho da firma, que tomava 
conta dos negcios da famlia Otterburn, parecia no ter o que dizer.
Sentindo a situao intolervel, Seldon levantou-se e atravessou a sala, 
parando em frente a uma grande janela, de onde se podia avistar as 
rvores do Hyde Park.
A casa dos Otterburn, em Londres, era grandiosa e elegante.
Mas Seldon, o quarto duque de Otterburn, pensava no castelo e nas 
propriedades da famlia em Buckinghanshire, que herdara inesperadamente e 
para onde tinha ido h menos de um ms, depois de sua volta do Oriente.
Na verdade, ele nunca via esperado assumir a posio de duque, pois
alm de existir Lionel, seu irmo mais velho, seu pai gozava de uma tima
sade e, aos cinquenta anos, dava a impresso de que viveria mais uns
quarenta.
No entanto, no inverno anterior, o antigo duque de Otterburn sucumbira a 
uma forte gripe epidmica que assolara a Inglaterra e que havia feito 
mais vtimas do que uma guerra de pequenas propores.
Seldon soube da morte do pai quando ainda estava se recuperando da 
notcia de que seu irmo mais velho tinha quebrado o pescoo e morrido 
numa caada.
O aviso da morte de Lionel fora encontr-lo em uma situao muito tensa, 
em meio  luta com algumas tribos guerreiras na fronteira com o 
Afeganisto. Embora tivesse desejado voltar ao seu pas e estar com seus 
parentes naquele momento de aflio, lhe fora impossvel sair do campo de 
batalha.
E havia sido tambm no campo de batalha que Seldon, dias depois, ficara 
sabendo da morte do pai. Sua presena era muito desejada na Inglaterra, 
e, devido  situao em que se encontrava, conseguira uma licena 
especial de seus superiores para partir o mais rpido possvel.
Na viagem de volta, percorrendo as maravilhosas plancies ensolaradas da 
sia, de trem e, muitas vezes, a cavalo, no conseguia deixar de pensar 
que sua permanncia no Exrcito Britnico chegava ao fim.
Quando atingira a idade adulta, Seldon se dera conta de que, como filho 
mais novo, no deveria esperar receber grande parte da herana, e que 
precisava construir sua vida sozinho.
Mais tarde, percebera que, por mais que seu pai vivesse de maneira 
extravagante, as propriedades da famlia no estavam rendendo o 
suficiente e que o velho Otterburn estava se atolando em dvidas e mais 
dvidas.
Aquela situao, no entanto, no caberia a Seldon resolver, e ele tratara 
de seguir sua carreira no Exrcito, indo primeiramente para o Sudo. 
Depois de algum tempo, fora designado para atuar na ndia.
Por ser um soldado excelente e um lder nato, havia comandado uma 
companhia de soldados que montava guarda perto das fronteiras indianas.
Seu esprito de liderana, a capacidade de transmitir confiana a seus 
homens e o seu bom senso nos momentos de deciso, tornaram Seldon um 
personagem importante no Exrcito Britnico. Era um soldado no qual o 
alto comando podia confiar, caso as relaes entre a ndia e os pases 
prximos entrassem em crise.
E havia muitas crises na fronteira ao norte da ndia. As tribos das 
regies vizinhas pareciam querer desbaratar a todo custo o poderio 
britnico e era preciso pulso firme para manter aquelas hordas de 
invasores distantes das fronteiras indianas.
Ao atravessar o mar Vermelho e o canal de Suez, Seldon tivera a certeza 
de que, dali para a frente, sua carreira militar estava acabada e 
desconhecia completamente o que o futuro lhe aguardava.
No saberia dizer o que sentia, agora que era o quarto duque de 
Otterburn.
H trs anos, quando estivera na Inglaterra, em frias, conversara sobre 
a situao da famlia com o irmo.
Seldon e Lionel eram muito amigos e os dois se preocupavam bastante com a 
fortuna dos Otterburn.
- O velho anda gastando dinheiro como gua! - dissera-lhe Lionel, naquela 
ocasio.
- E onde papai consegue tanto dinheiro assim?
- S Deus sabe! Ele nunca discute sua vida comigo, voc o conhece.
- Mas ser que papai precisa viver cercado por tanta extravagncia? Soube 
que ele contratou mais doze criados para Buckinghanshire, seis para nossa 
casa, aqui em Londres, e que nossos estbulos esto lotados de cavalos!
-  verdade! - exclamara Lionel. - E ainda deseja ampliar o estbulo, em
Newmarket. Seus cavalos no venceram nenhuma prova durante o ano passado, 
e, agora, ele quer a desforra!
- E, alm dos cavalos, ele nunca se cansa de ampliar sua coleo de 
mulheres bonitas!
Os dois irmos riram. Sabiam muito bem que o velho Otterburn era atraente 
e do quanto gostava de mulheres jovens e bonitas.
- Voc precisava ver a ltima! - replicara Lionel. Ela no tem a mnima 
vergonha de mostrar a todos os imensos diamantes que papai lhe deu.
- Quem  ela?
- Uma garota da companhia teatral "Gaiety Girls". Ela no dana, no 
canta, mas parece uma vnus de to bonita. E  papai quem lhe custeia 
todos os desejos, por mais insignificantes que sejam!
Os dois riram de novo. Em seguida, Seldon se tornara
srio:
- Vai ser muito difcil tomar conta dos negcios, quando voc herdar a 
fortuna da famlia, Lionel.
- Isso no me preocupa nem um pouco - dissera Lionel, encolhendo os 
ombros. - Papai  forte e cheio de sade. Na certa, ele  que vai me 
enterrar.
Lembrando-se daquela conversa com o irmo, Seldon no pde deixar de 
pensar que, infelizmente, Lionel acertara na profecia.
E agora, que o irmo e o pai estavam mortos, caberia a ele enfrentar a 
difcil crise financeira da famlia Otterburn.
Deu as costas para a janela, pensativo.
- Precisamos encontrar uma soluo, Fossilwaithe.
- Concordo, senhor.
- Existe possibilidade de vender esta manso?
- Est alienada, senhor. Seu pai tambm quis vend-la h alguns anos, mas 
foi impossvel.
Seldon sentou-se novamente atrs da escrivaninha.
- Ento, todos os objetos de nossas propriedades tambm se encontram na 
mesma situao, no ? Inclusive as obras de arte.
- Exatamente. Seu bisav, o primeiro duque de Otterburn, procurando 
preservar os bens da famlia, alienou tudo o que possua. Seu av tambm 
fez o mesmo. Infelizmente, nada do que o senhor tem hoje pode ser vendido 
para sanar suas dvidas. - Fossilwaithe fez uma pausa, e continuou:
- Bem, ao norte do castelo, existem cinco acres de terra, que pertenciam 
 senhora sua av e que podem ser vendidos.
Os olhos de Seldon brilharam.
- E quanto voc acha que conseguiramos com a venda dessas terras?
- No muito, senhor. Alm disso, devo lembr-lo de que, nessas terras, 
esto situados o asilo e as casas dos colonos.
O olhar de Seldon voltou a exprimir a anterior preocupao. Sabia muito 
bem que, vendendo aquelas terras aos especuladores
ou mesmo a um nobre, o asilo seria desativado e os colonos
desalojados.
Pegou os papis e voltou a examin-los.
- Creio que o que tenho a fazer  ler com mais cuidado estes documentos; 
gostaria tambm de estudar o inventrio que voc fez da situao das 
propriedades da famlia, quando papai morreu.
- Tenho uma cpia comigo - disse Fossilwaithe, entregando-a a Seldon. - 
Sinto muito, sr. duque. Gostaria de ter lhe dado notcias melhores ou de, 
pelo menos, ter lhe fornecido alguma soluo para o caso.
- Muito obrigado, Fossilwaithe. Sei que tudo que me contou  verdadeiro; 
mas preciso ler atentamente esta documentao. S depois de estud-la bem 
 que terei uma viso mais clara do problema com que estou lidando; e, 
a, tentarei tambm encontrar uma soluo.
Havia tanta tristeza em sua voz, que Fossilwaithe pde perceber 
claramente o quanto aquela situao o incomodava.
As dvidas eram tantas, que o nome da famlia Otterburn corria srio 
risco de ser envolvido num escndalo financeiro de grandes repercusses 
no mundo dos negcios britnicos.
- Quero dizer-lhe, ainda, senhor, que minha firma far tudo o que estiver 
ao seu alcance para ajud-lo.
Seldon levantou-se e estendeu a mo para o contador.
- Tenho certeza que sim. E devo agradecer-lhe pelo que tem feito por mim 
e principalmente por ter compreendido o difcil momento pelo qual estou 
passando.
- Obrigado, senhor.
Fossilwaithe apertou a mo de Seldon e se retirou, deixando o duque muito 
preocupado.
Aquela era uma situao delicada e desagradvel, mas, na verdade, 
preferia ser ele a enfrent-la. Pior seria se aquela bomba tivesse
estourado nas mos de Lionel.
Seu irmo no tinha o pulso muito firme e, na certa, no saberia como se 
sair bem daquele impasse.
"A primeira coisa que tenho a fazer  fechar o-castelo!", pensou.
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Seldon sabia que aquela deciso chocaria seus parentes, pois o castelo, 
centro das atividades sociais e das comemoraes familiares dos 
Otterburn, era o local mais importante de suas vidas.
- Mas o que mais posso fazer? - disse a si mesmo. O castelo  enorme e  
preciso uma fortuna para conserv-lo funcionando!
Assim que chegara  Inglaterra, tinha ido para o castelo e observara que 
os compartimentos principais haviam sido redecorados luxuosamente por seu 
pai durante os ltimos cinco anos, mas as cozinhas, as copas e as 
despensas precisavam de reparos urgentes, sem contar os aposentos dos 
criados, que mais pareciam palhoas.
Seu pai no introduzira ali nenhum melhoramento, pois o que mais lhe 
importava era ter a gua quente para o banho, sem se preocupar se esta 
vinha atravs do encanamento ou do esforo dos criados, que tinham que 
subir as escadas e percorrer corredores interminveis, carregando baldes 
e baldes de gua fumegante at os aposentos do patro.
As baixelas de ouro e de prata, onde eram servidas as refeies do duque 
e dos convidados, eram modernas e belssimas, mas os pratos e talheres 
usados pela criadagem eram velhos demais, e estavam em situao precria.
Os jardins e as estufas continuavam em timas condies, mas as casas dos 
jardineiros e dos outros empregados estavam quase desmoronando, com 
buracos nos tetos e sem portas.
Sim, o castelo precisava passar por srias e dispendiosas reformas.
Os cavalos de raa tinham que ser vendidos, o que era mais do que bvio,
tendo em vista a situao. Venderia os belos animais, mesmo sabendo que o
dinheiro que conseguiria com eles no daria para pagar nem um quinto de 
todas as dvidas contradas por seu pai.
Desgostoso com todas aquelas contas apresentadas por Fossilwaithe, Seldon 
guardou os papis numa gaveta da escrivaninha,
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e saiu do escritrio, em direo  sala de estar principal.
Para decorar aquele aposento, seu pai contratara um dos decoradores mais 
caros de Londres, que cobrira as paredes com brocados de seda e mandara 
pintar as colunas de dourado.
O antigo duque tambm mandara vir um pintor diretamente da Itlia para
elaborar a pintura do teto, que tinha como tema principal a figura de
Vnus ladeada por dois cupidos.
Aquela sala realmente era maravilhosa! Cada detalhe, cada objeto que a 
decorava estava em seu lugar, contribuindo para o conjunto elegante e 
luxuoso que o decorador concebera com muito refinamento.
Seldon olhou para tudo aquilo e dirigiu-se at uma mesinha onde havia uma 
bandeja de prata repleta de garrafas de bebida. Seu pai sempre fizera 
questo de que, em cada aposento, existisse uma bandeja como aquela.
No que o duque fosse um alcolatra, longe disso.  que ele no gostava
de ser interrompido por criados quando estava a ss com alguma dama...
Na bandeja, havia uma garrafa de champanhe num balde de gelo, e mais
algumas de xerez, usque e brandy. Ao lado, uma cestinha de prata
trabalhada guardava sanduches de pat de fgado.
Desde criana, Seldon nunca vira ningum comendo aqueles sanduches,
embora seu pai obrigasse os criados a replos, todas as manhs e todas as
noites, naquele mesmo local. Esperava ardentemente que, pelo, menos, os
criados os comessem, quando eram levados de volta  cozinha.
Colocava um pouco de brandy num clice, quando o mordomo abriu a porta e 
anunciou:
- Lady Edith Burn, senhor!
Surpreso, Seldon virou-se para a porta e viu entrar sua prima Edith, que, 
apesar de ter bem mais de quarenta anos, ainda era muito bonita e 
elegante.
- Edith, que surpresa mais agradvel! Pensei que voc ainda estivesse nos
Estados Unidos!
- Voltei especialmente para v-lo, Seldon querido. Para falar a verdade, 
desembarquei ontem em Southampton.
Ela caminhou pela sala e sentou-se num lindo sof de brocado azul, 
observando Seldon intensamente.
- Bem, qual  o veredicto? - perguntou ele, sorrindo. Lady Edith riu.
- Voc no  to modesto, Seldon, para no saber que  bonito e atraente 
e que muitas beldades inglesas estariam doidas para carem em suas 
graas!
- Duvido.
- O que voc quer dizer com isso?
- Quero dizer que um duque sem dinheiro e cheio de dvidas no agrada a 
nenhuma beldade, por mais bonito que seja...
- Imaginei que voc ficaria decepcionado com o que lhe aguardava aqui, na 
Inglaterra... - murmurou Edith, com um pouco de tristeza na voz.
- Para dizer a verdade, Lionel e eu sabamos que papai no administrava 
bem nossa fortuna, mas eu no podia imaginar que a situao fosse assim, 
to... catastrfica!
Edith concordou com a cabea.
- Eu gostava de seu pai. Foi um dos homens mais fascinantes que j 
conheci em toda minha vida, mas, infelizmente, nunca desistia de nada que 
desejasse, por mais caro que fosse.
- Fico feliz em saber que voc gostava de papai. O problema  que, agora, 
terei que pagar as contas dele pelo resto da vida; e se eu no comear 
imediatamente a trabalhar, em breve passarei fome!
Sua voz era amarga e Edith murmurou:
- Sinto muito, Seldon querido.
- Eu tambm. E sei que voc e todos os nossos parentes tambm sentiro 
muito quando eu fechar o castelo e esta manso, mas no vejo outra 
alternativa.
- Ser muito triste para todos ns.
- Fossilwaithe acabou de sair, e deixou bem claro que a
quantia em dinheiro que meu pai deve aos credores daria para subvencionar 
o Exrcito Britnico por uns dez anos mais!
Sem esperar qualquer comentrio de Edith, ele voltou-se para a bandeja de 
bebidas e perguntou:
- O que voc bebe, Edith?
- Um clice de xerez, por favor.
Enquanto ela bebia, Seldon chegou  concluso de que era timo ela ser a 
primeira a saber das ms notcias. Entre todos os seus parentes, Edith 
era a mais inteligente e a que possua mais juzo e bom senso.
A histria dela era muito triste. Aos dezoito anos, conhecera um homem 
muito mais velho do que ela, extremamente rico e bonito. Os dois se 
apaixonaram quase de imediato e decidiram se casar o mais breve possvel. 
Mas, como era muito comum na poca, os pais de Edith exigiram que o casal 
noivasse por seis meses, antes do casamento.
O noivo de Edith j havia passado vrios anos viajando pelo mundo, tanto 
a passeio quanto a servio da Inglaterra, junto ao governo de outros 
pases. Logo aps a festa de noivado, ele foi convocado para resolver um
grave problema entre o governo britnico e o sulto do Marrocos.
Ele no pudera recusar a convocao, mas prometera a Edith que faria tudo 
para estar de volta pelo menos dois meses antes do casamento.
O tempo passara e, na poca em que deveria estar de volta, ele no havia 
aparecido.
Um ms depois, ela implorara ao pai que se informasse na Embaixada sobre 
o seu paradeiro.
Foi ento que soubera que o homem tinha simplesmente desaparecido!
O governo ingls tomara todas as providncias possveis para encontrar 
seu ilustre sdito. Muitos meses depois, ficaram sabendo que ele tinha 
sido visto junto a uma tribo hostil ao sulto. Na certa, era 
prisioneiro...
Tanto a Inglaterra quanto o governo marroquino fizeram o mximo para 
localizar a tal tribo inimiga, mas todos os
esforos foram em vo. Finalmente, aps muitas procuras, as buscas 
cessaram. S Edith continuou esperando...
Dez anos depois, uma expedio inglesa encontrara a tribo que havia 
raptado o noivo de Edith. Ficaram sabendo, ento, que ele havia morrido e 
foi s com esta notcia que Edith parou de esper-lo...
Depois disso, ela voltara a ter uma vida normal, mas nunca se casara. 
Havia viajado para todos os lugares possveis, primeiro com seus pais, 
depois com uma dama de companhia.
Edith tinha trinta e cinco anos quando publicara seu primeiro livro: 
Viagens ao Oriente; no ano seguinte, lanou o Viagens ao Ocidente.
Sob o reinado da rainha Vitria, todos apreciavam livros de viagem, e ela 
tornara-se uma celebridade.
Sua vida independente fora alvo de muitas crticas, pois todos 
acreditavam que nenhuma mulher pudesse viver sem a proteo de um homem, 
e que era papel de uma jovem ficar em casa cuidando dos filhos, ou ento 
dedicando-se  caridade, caso fosse solteira.
Mas Edith ria daquelas crticas. Era uma mulher experiente e sensata e 
Seldon sabia que s ela poderia ajud-lo a tratar o assunto de sua quase-
pobreza com o restante da famlia.
- A situao  essa, prima, e eu no sei o que fazer.
- Eu teria uma soluo para o seu problema, se estivesse disposto a me 
ouvir.
- Mas  claro! Estou disposto a ouvir qualquer coisa que voc tenha a me 
dizer - replicou Seldon, com a ligeira impresso de que a sugesto de 
Edith no deveria ser muito plausvel.
Ela colocou o clice sobre uma mesinha de mrmore italiano, ao lado do 
sof.
-  muito simples, Seldon: voc tem que dar o golpe do ba!
Ele nunca esperara ouvir aquilo de sua prima. Olhou para Edith 
completamente surpreso. Ela voltou a falar:
- Acabei de chegar dos Estados Unidos e Nova York
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est cheia de mulheres ambiciosas querendo casar suas filhas com 
aristocratas ingleses.
- Voc no pode estar falando srio, minha cara!
- Mas  claro que sim, Seldon! - replicou Edith rindo.
- Desde que Jenny Jerome casou-se com lorde Randolph Churchill, em 1874, 
a ambio matrimonial das grandes anfitris da Quinta Avenida  ver suas 
filhinhas usando um ttulo de nobreza.
- Se o que voc est falando  verdade, fique sabendo que no gosto nada 
da ideia. Ela me deixa doente!
- Tinha certeza de que voc me diria isso. Voc viveu muito tempo fora do 
pas e nem faz ideia do grande nmero de ingleses que no esto se 
importando muito em trocar seus ttulos de nobreza por alguns milhes de 
dlares!
- Mal posso acreditar no que est me dizendo - murmurou ele. - E  bom 
ficar sabendo, desde j, que a resposta para qualquer sugesto dessa 
natureza ser "no".
Edith pegou o clice, bebeu mais um gole e falou com calma:
- Tudo bem, Seldon, e eu o admiro muito por sua atitude. Mas, depois de 
tudo o que me disse, e que eu j sabia, gostaria de lhe fazer algumas 
perguntinhas, se voc me permitir.
- E quais so?
- Sua tia-av me escreveu uma carta, que recebi pouco antes de deixar 
Nova York, contando-me que, desde a morte de seu pai, no tem recebido a 
penso.
Edith esperou Seldon dizer alguma coisa, mas, como ele permaneceu em 
silncio, continuou:
- Seu pai costumava lhe dar setecentas e cinquenta libras por ano, e essa 
soma era tudo o que a pobre velhinha tinha para se manter. Ela vive com 
dois velhos e fiis criados, numa casa de fazenda que, alis, est em 
pssimas condies; e, como j tem mais de oitenta anos, duvido muito que 
consiga sobreviver sem essa penso.
Seldon continuava calado e Edith continuou:
- E h mais um nmero enorme de velhinhos que sempre foram sustentados 
por seu pai. Tenho uma lista comigo, encabeada
por sua velha governanta. Voc se lembra da srta. Chamberlain, no
 mesmo? Ela recebe s duzentas libras por ano, mas, como tem sessenta e 
sete anos e sofre de reumatismo, no pode trabalhar, mesmo que o 
quisesse. Todos os antigos criados de seu pai, que hoje no podem mais 
trabalhar, recebiam dele uma penso. Somando tudo, so trs mil e 
quinhentas libras por ano. Se voc parar de enviar esse dinheiro, ser a 
morte deles.
- Impossvel! Onde voc acha que poderei arrumar trs mil e quinhentas 
libras por ano?
Edith concordou com a cabea.
- Sei que  impossvel, mas o que faremos com esses pobres coitados? Sem 
essas penses, eles acabaro morrendo!
Seldon foi at a janela e falou irritado:
- Mas tudo isso  simplesmente intolervel! Quando penso no dinheiro que 
meu pai esbanjou com mulheres, cavalos e criados, perco a calma por 
completo!
- Reconheo que  difcil aceitar tudo isso, meu caro, mas no podemos 
fazer mais nada! Est feito!
- Sim, Edith. Mas, agora, a questo : o que eu posso fazer para resolver 
tudo isso?
- A no ser que voc queira que todas as pessoas desta lista morram de 
fome, s h uma coisa a fazer!
- Casar por dinheiro? Mas isso  degradante, obsceno,  pior do que ter 
escravos, ou comprar o corpo de uma mulher num bordel! - Sua voz soou 
forte, quase raivosa. Percebendo o silncio da prima, ele se acalmou: - 
Desculpe, Edith, no devia ter falado deste jeito.
- Entendo, Seldon - disse ela gentilmente. - Posso avaliar o quanto  
difcil, para uma pessoa de princpios rgidos como voc, aceitar uma 
situao assim.
Seldon suspirou desanimado e ela continuou:
- Mas, por outro lado, primo, esse tipo de coisa acontece na sociedade 
inglesa h muito tempo.  Olhe para as famlias que conhecemos e 
respeitamos. Qual delas no tiveram que celebrar um casamento de 
convenincia para incrementar
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alguma herana? E, aqui entre ns, um pouco de sangue vermelho, com 
certeza, no faria mal algum a nosso sangue azul, no  mesmo?
- No, minha cara. Um casamento por interesse seria impraticvel para 
mim!
- E por qu? No acho impraticvel e sim muito prtico. Talvez por ter 
passado tanto tempo em Nova York, acho que at entendo o fato das mes 
norte-americanas desejarem tanto que suas filhas se casem com nobres 
ingleses. - Edith percebeu que ele a escutava com ateno e continuou: 
Muitas moas americanas so bastante atraentes, educadas e tm muita 
personalidade.
Seldon parecia um pouco em dvida e ela recomeou, antes que ele pudesse 
dizer qualquer coisa:
- Os homens americanos so diferentes. Quando jovens, concentram todas as 
suas energias na ambio de conseguir mais e mais dinheiro. Existem 
poucos homens cultos nos Estados Unidos! Eles s se preocupam com 
dinheiro, dinheiro e mais dinheiro!
- bom, Edith, vamos mudar de assunto? No quero mais ouvir falar sobre 
isso, est bem?
- Quer sim! Estou lhe dizendo, Seldon, que a nica chance de salvar o 
nome da famlia, o castelo e a vida de seus inmeros dependentes  se 
casar com uma moa americana bem charmosa, dona de uma imensa fortuna que 
voc administrar como quiser. E, em troca, meu caro primo, ela s vai 
querer usar o ttulo de duquesa de Otterburn!
- Voc fala como uma alcoviteira do sculo passado! Edith riu 
gostosamente.
- Se voc est pensando que me insulta com essas palavras, est muito 
enganado. Imagino o que deve estar sentindo, mas muitos idealistas, antes 
de voc, deixaram de encarar o mundo como um sonho e enfrentaram a 
realidade. Sei que considera sujo esse tipo de casamento, mas ver que 
no ser to desagradvel assim. Prometo escolher para voc uma esposa 
atraente e muito malevel, duas qualidades que, tenho certeza, o 
agradaro muito.
Ela suspirou e voltou a falar:
- Voc tem que se casar, mais cedo ou mais tarde. Se ficar esperando uma 
moa inglesa para torn-la sua esposa, vai se decepcionar. As inglesas 
so to insignificantes perto das americanas! S se tornam charmosas e 
interessantes depois de casadas, nunca enquanto so jovens debutantes. 
Edith riu e continuou: - Sua vida no seria muito animada se se casasse 
com uma inglesa. Mas pode ficar sossegado: vou lhe arranjar uma americana
bem atraente! E, do jeito que  bonito, estou certa de que ser faclimo
encontrar uma bem rica, que lhe trar bilhes de dlares!
- No me casarei por interesse! No me respeitaria se fizesse uma coisa 
dessa!
Edith no respondeu, apenas bebeu mais um gole de xerez.
- Ouviu o que eu disse, Edith?
- Ouvi, Seldon. Mas voc se casar, meu caro, porque no h outra coisa a 
fazer.

CAPITULO II

Nathaly bateu a porta e escondeu, no decote do vestido, o bilhete que
estava lendo. Uma sensao de terror a invadiu quando sua me entrou na
sala.
Mary Vandervilt, conhecida pelas fofoqueiras novaiorquinas como o "Drago 
da Quinta Avenida", era uma mulher muito bonita. Portava-se como uma 
imperatriz, e as jias que constantemente usava conferiam-lhe um requinte 
e uma sofisticao inigualveis.
Mas, apesar de sua beleza, seus olhos eram duros, e no havia nem uma 
leve sombra de sorriso em seus lbios quando parou e olhou a filha 
fixamente.
Nathaly tremia desesperada e houve um breve silncio antes que sua me 
comeasse a falar:
- Soube que lhe mandaram flores. Quem foi?
- No... no sei...
Era mentira e no conseguiu encarar a me. Olhou pela sala e seus olhos 
pousaram num vaso de porcelana de Svres cheio de lrios-do-vale.
Mary Vandervilt seguiu os olhos da filha e um suspiro escapou de seus
lbios.
- Lrios-do-vale! Acho que seu admirador pensa que voc  um lrio! Bem,
quero saber o que lhe escreveu!
Nathaly ficou em silncio por um instante. Ainda trmula, murmurou:
- No... No sei do que a senhora est falando...
- No tente me enganar, Nathaly. Voc bem sabe que isso  impossvel. Sei
quem lhe enviou as flores e quero ler o bilhete, est bem?
Nathaly no respondeu e Mary percebeu que a filha estava plida e
nervosa. Chegou um pouco mais perto da moa e falou com uma expresso
raivosa:
- No bato em voc desde quando tinha quinze anos, Nathaly, mas talvez eu
o faa agora, se continuar se negando a me dar o bilhete!
- Mame! - exclamou ela com medo.
- Voc sabe muito bem que estou falando srio! D-me o bilhete!
A moa colocou a mo no decote do vestido, retirou o bilhete e entregou-
o hesitante  me.
- O homem que lhe escreveu isto vai se dar muito mal. A partir de agora,
voc s sair comigo e no ir nem a festas nem a bailes at chegarmos 
Inglaterra!
- Inglaterra... Vamos viajar, mame?
- Voc vai  Inglaterra para se casar com o duque de Otterburn.
Ela quis falar com um tom severo na voz, mas as palavras lhe saram
triunfantes dos lbios, e nem percebeu direito a expresso de terror que 
brotou nos olhos de Nathaly. - Mas... Mas, mame... como posso me casar 
com esse tal duque? Eu nunca... o vi...
- Isto no importa. Lady Edith Burn j arrumou tudo, e voc j pode se 
considerar uma moa de muita sorte. S
quero ver a cara da sra. Astor, quando seu noivado for anunciado...
- Mas, mame... eu no posso...  impossvel... Sem se preocupar com os
lamentos da filha, Mary Vandervilt caminhou at a porta. Quando ia sair
da sala, olhou para o vaso de lrios-do-vale, que estava sobre uma
mesinha. Foi
21
at ele, pegou as flores e jogou-as no cho, pisoteando-as com crueldade.
com um sorriso prfido, Mary deixou finalmente a sala, sem nem mesmo dar 
um breve olhar para a filha.
Nathaly emitiu um grito de dor e colocou a mo no rosto. Quando sua me 
destrura as flores, matara tambm algo que havia nascido dentro dela na 
noite anterior...
O baile estava sendo uma festa comum, at o momento em que danou com 
ele...
J estava cansada dos outros rapazes com quem danara. Conhecia-os desde 
pequena e estavam juntos em todas as festas, inclusive no baile de seus
dezoito anos.
Quanto mais amadurecia, mais tolos lhe pareciam os rapazes seus amigos.
Um dia, at reclamara com o pai:
- Parece absurdo, papai, mas, quase sempre, sinto como se fosse bem mais
velha do que os rapazes com quem dano nos bailes; quando sento perto
deles, nos jantares, no sabem falar de outra coisa a no ser de cavalos.
E o pior  que eles parecem bem menos inteligentes do que os pobres
animais!
O sr. Joseph Vandervilt rira divertido, mas, quando havia comeado a
falar, Nathaly perceber um pouco de tristeza em sua voz:
- Voc no devia ser to inteligente, querida, j que  to bonita!
- Obrigado por me achar bonita e inteligente, papai.
-  claro que acho. E agora, quero lhe mostrar um quadro que acabei de
comprar. Aqui em casa, s voc tem condies para apreci-lo.
Nathaly sentira que o pai referia-se sutilmente ao fato de sua me no
dar a mnima ateno para a sua coleo de obras de arte, o que lhe
causava uma grande tristeza.
Para a bela Mary Vandervilt, colecionar obras de arte era pura perda de
tempo, assim como dar a educao que o marido exigira para Nathaly. Em
lugar de gastar tanto dinheiro com o aprimoramento cultural da filha,
achava que ele deveria ter aproveitado o dinheiro comprando muito mais
jias para Nathaly.
22
Mas o sr. Vandervilt fora sempre inabalvel em sua convico de dar a
melhor educao para a filha. Embora deixasse a mulher fazer o que
quisesse, nunca permitira que se intrometesse no tocante s despesas com 
a educao de Nathaly.
As governantas e os professores da filha eram escolhidos por ele, e sua 
mulher, por no entender quase nada de cultura, acabava sempre 
concordando com as indicaes.
Nathaly, inteligente e curiosa, aproveitara todas as lies e seu 
horizonte cultural se abrira pra diversos campos. Aquele contato com os 
livros e com os professores havia sido timo para ela, uma vez que, 
quando criana, passava a maior parte do tempo dentro de casa, sem se 
relacionar com muita gente.
E, no entanto, vivendo assim, to reclusa, Nathaly era a garota mais rica 
dos Estados Unidos.
O casamento de seus pais no havia representado apenas a unio de dois 
jovens muito bonitos, mas tambm a associao das duas maiores fortunas 
do pas, acumuladas por seus ancestrais, que haviam chegado  Amrica h 
vrios sculos.
O av e o pai de Mary eram donos de acres e acres de terras, onde fora 
construda Nova York, e o pai do sr. Vandervilt investira em minas de 
ouro e nos primeiros poos de petrleo.
A grande tragdia para o casal Vandervilt era o fato de terem apenas uma 
filha para quem deixar toda a sua imensa fortuna.
Nathaly logo percebera ser "especial". Nunca saa de casa sozinha e, 
desde pequena, quando ia passear com a governanta no Central Park, era 
sempre seguida por alguns guardacostas muito fortes. S comeara a se 
preocupar com todo aquele cuidado que a cercava quando se dera conta de 
que, provavelmente, nenhum homem que encontrasse pela vida poderia ser 
considerado bom o bastante para ser seu marido. Para sua me, nenhum 
americano parecia possuir as qualidades suficientes para ser seu genro.
Muito romntica, Nathaly esperava um dia encontrar seu
prncipe encantado. O sr. Vandervilt cultivava muito esse romantismo da 
filha e lhe dera Romeu e Julieta para ler, quando ela ainda mal entrara 
na adolescncia. Depois havia lhe contado a histria de Dante e Beatriz e 
a fizera chorar com as vidas de Abelardo e Helosa...
E, quando Nathaly ficara moa, seu pai havia se sentido orgulhoso pelo 
fato de a filha amar tanto quanto ele as obras de arte.
O sr. Vandervilt iniciara sua coleo muito jovem, quando de sua primeira 
viagem a Florena. Excetuando Nathaly, para ele era muito difcil
explicar s pessoas o que havia sentido quando entrara pela primeira vez 
na Galleria degli Uffizi e vira os quadros de Botticelli. Fora amor  
primeira vista...
A partir da ficara apaixonado por pintura e passara a colecionar obras 
de arte de todas as pocas, tornando-se um dos maiores colecionadores dos 
Estados Unidos. Porm, o que o distinguia de seus colegas era o fato de 
no adquirir apenas obras dos grandes mestres j consagrados pela 
tradio. O sr. Vandervilt possua sensibilidade para apreciar artistas 
que os demais colecionadores desprezavam...
Nas vastas galerias de sua manso, na Quinta Avenida, havia quadros de 
Sisley, Monet e um Renoir que ele comprara por poucos francos, numa poca 
em que todos riam dos quadros impressionistas.
- Existe alguma coisa em voc que me faz recordar os quadros de Sisley, 
filha - dissera certa vez a Nathaly.
- Ora, papai, assim o senhor me deixa sem graa - respondera ela, toda 
orgulhosa.
Mas Mary Vandervilt tinha uma opinio muito diferente sobre a filha:
- Voc  muito alta, menina. Seu pescoo  comprido e no sei de quem
voc herdou essa cara de beb. Faa bastante massagem no nariz, para ver
se ele cresce um pouco, pois  extremamente pequeno! Deus  testemunha de
que eu sempre quis ter uma filha de feies clssicas, como essas
mulheres que esto nos quadros de seu pai!
Mary Vandervilt pensava nos Rubens, Rembrandt e nos
Van Dyke que forravam as paredes da sala de estar, do hall e da galeria.
Apreciava aquela coleo de obras de arte valiosssima apenas porque os 
seus amigos ficavam mortos de inveja e os jornais noticiavam a toda hora 
que os Vandervilt possuam a "maior coleo particular da Amrica".
Sempre que podia, Nathaly gostava de ir ao escritrio do pai para admirar 
uma bela paisagem de Sisley que ele colocara sobre a escrivaninha. 
Apreciava o fato de seu pai associar a beleza e a tranquilidade dos 
quadros daquele artista  sua pessoa.
Mas aqueles momentos agradveis eram cada vez mais raros. Sua me no lhe 
dava sossego, sempre querendo que sasse com ela para chs de caridade, 
festinhas ou para experimentar roupas e mais roupas.
Nathaly j estava cansada daquela vida e um dia queixarase ao pai:
- No aguento comprar tantas roupas assim, papai. Queria viver nua, ou 
ento, com uma simples tnica, como as gregas de antigamente.
O sr. Vandervilt sorrira e ela havia percebido que ele entendera seu 
problema.
- s vezes, quando a costureira vem at aqui para experimentar algumas 
roupas, eu tento ler enquanto ela faz os ajustes necessrios. Mas mame 
sempre arranca o livro de minha mo, dizendo que nenhum homem gosta de 
mulher que vive com a cara metida em livros.
Seu pai no comentara nada e, depois de um momento, Nathaly havia 
perguntado:
- Por que o senhor se casou com mame?
Eles sempre falavam com franqueza e Nathaly perguntava certas coisas a 
ele que nenhuma outra pessoa responderia.
O sr. Vandervilt no respondera imediatamente, e ela sabia que no estava 
embaraado; apenas tentava se lembrar um pouco do passado.
- Nossos pais fizeram questo de que nos casssemos, Pois imaginavam que 
a unio de duas fortunas seria um negcio muito vantajoso. E sua me era 
uma moa muito bonita.
Eu entendia muito pouco de mulher naquela poca, pois s me preocupava 
com quadros. Mas ela me parecia maravilhosa, como uma madona. pintada por 
um velho mestre italiano.
Nathaly no dissera nada, e ele havia parado de falar. Os dois sabiam 
muito bem que, agora, Mary Vandervilt, tendo alcanado a glria de ser um 
dos pilares da vida social de Nova York, perdera a aparncia de madona e 
mais se assemelhava a uma medusa, cheia de diamantes na cabea, em vez de 
cobras.
Assim que se casaram, o sr. Vandervilt logo percebera que sua mulher 
tinha uma vontade de ferro e uma determinao que ningum seria capaz de 
suplantar. Sempre fazia o que queria e seu marido, pouco a pouco, fora se 
transformando num personagem secundrio em sua vida.
O sr. Vandervilt contentava-se em conviver com seus quadros e com uns 
poucos amigos colecionadores, que compartilhavam com ele o amor pelas 
artes.
Era-lhe simplesmente impossvel interferir na educao de Nathaly; embora 
achasse a mulher severa demais para com a filha, preferia ficar quieto a 
ter que iniciar uma discusso.
Era Mary quem punia Nathaly quando a menina cometia alguma falta. Chegava 
a lhe bater, obrigando-a a no chorar na frente dos outros, por acreditar 
que uma pessoa de classe no devia mostrar seus sentimentos em pblico.
Porm, por mais severa que tenha sido, Mary no havia conseguido moldar o 
carter da filha, que era uma pessoa sensvel por natureza.
Nathaly sentia medo da me e seu nico refgio, alm do pai, eram os 
livros que encontrava na biblioteca, onde podia viver num mundo de paz, 
aventura e harmonia. Conforme ia crescendo, criara dentro de si um 
universo maravilhoso, de sonhos e iluses, muito diferente da realidade 
do seu dia-a-dia.
Por ser muito feminina e romntica, em seus devaneios sempre havia um 
prncipe encantado que a amava e a protegia de todos os perigos. E, na 
noite anterior quela cena com sua me, Nathaly pensou t-lo encontrado 
finalmente...
OA
O rapaz que a convidara para danar era ingls, sobrinho de uma mulher da
alta sociedade  novaiorquina, cuja irm casara com um lorde. A chegada
da famlia aos Estados Unidos fora anunciada com grande pompa pela 
imprensa.
Alto, elegante, de olhos azuis, ao v-lo, Nathaly sentiu como se ele
tivesse sado de um dos contos de fadas que seu pai lhe contara, quando
garotinha.
Enquanto danavam, ele lhe dissera:
- Voc  muito bonita e diferente de todas as moas que conheci. Para 
dizer a verdade, voc me lembra os lriosdo-vale.
- Obrigada - respondera Nathaly, sorrindo.
- E sua pele parece ser to suave, que gostaria muito de poder toc-la.
Nathaly o tinha encarado surpresa, sabendo que o rapaz fora um tanto 
ousado. Nenhum dos rapazes com quem costumava danar teria dito uma coisa 
daquelas.
Ele a olhava intensamente e ela havia corado.
- Tenho que v-la de novo - dissera de repente. - Vamos combinar de nos 
encontrar?
- Se voc quiser me ver, pea para sua tia combinar alguma coisa com 
minha me.
- Quero v-la a ss.
- No me permitem estar sozinha com ningum.
- Vou dar um jeito nisso. Deixe comigo.
Nathaly sentira, deliciada, que o rapaz a estreitara um POUCO mais nos 
braos. Finalmente, ao terminar a msica, ele a levara para perto de 
Mary.
No puderam danar novamente, pois ela j estava comprometida com outros 
rapazes, mas seus olhos se cruzavam a todo instante pelo salo e Nathaly 
sentia o quanto desejava conversar com ele de novo, embora percebesse
que seria impossvel.
E, ento, tomara conhecimento do que sua me vinha planejando h trs 
semanas!
Havia ficado um pouco desconfiada, quando lady Edith Burn comeara a 
frequentar sua casa insistentemente. Ela e
sua me se trancavam na sala de estar e conversavam horas e horas. Pelo 
menos, aquelas visitas a deixavam livre, para estar mais vezes junto ao 
pai.
- Oh, papai, estava com saudades - dissera ela, na primeira visita de 
Edith.
- Eu tambm, querida. Venha ver o que tenho aqui.  um Boudin, um dos 
mais lindos que j vi. E comprei tambm um outro Sisley!
Os dois sentaram-se para admirar melhor as duas belas obras de arte. 
Pouco a pouco, a conversa havia passado de artes plsticas para histria, 
depois para filosofia e, ento, comearam a falar sobre literatura 
contempornea.
- Tenho um livro francs aqui comigo que gostaria que voc lesse - 
dissera o sr. Vandervilt. - Mas no deixe sua me ver.
- No, claro que no, embora no haja problema, pois mame no entende 
francs.
- Mas ela j deve ter ouvido falar de Gustave Moreau, pois todo mundo 
comenta sobre ele.
- Pode deixar que vou escond-lo direitinho. E agora, queria lhe fazer
algumas perguntas sobre o budismo, papai. Acho que s o senhor poderia
me responder.
Os dois continuaram a conversar at Edith ir embora, mas ela voltara no 
dia seguinte, e no outro tambm.
Agora, Nathaly dizia a si mesma que deveria ter percebido que algo de 
muito importante estava sendo tramado.
Ela deveria se casar com o duque de Otterburn! Mas quem era ele?
Tirou as mos do rosto e viu os pobres lrios-do-vale espalhados sobre o 
assoalho. Eles pareciam to despedaados quanto seus sentimentos!
Sentindo-se aterrorizada e completamente perdida, achou melhor procurar 
seu pai. Desceu correndo as escadas at o escritrio e, como esperava, 
encontrou-o examinando um quadro com muita ateno.
A princpio, o sr. Vandervilt no percebeu que a filha tinha entrado. 
Mas, quando voltou-se um pouco e encarou-a,
Nathaly correu para seus braos e encostou o rosto no seu ombro protetor.
Percebendo que ela tremia terrivelmente, depois de um momento, o pai 
falou:
- Acho que sua me j lhe contou.
- No posso fazer... isso, papai! No posso... casar com algum que 
nunca... vi e que no... amo!
O sr. Vandervilt abraou-a com mais fora, murmurando:
- J imaginava que voc iria sofrer, minha filha!
- O senhor tem... que me salvar, papai. Sabe que mame... no escutar... 
se eu disser que no quero... casar com o tal... duque!
Seu pai beijou-a na testa e disse:
- Vamos nos sentar, querida. Quero falar com voc. Nathaly ficou surpresa 
com o tom de voz de seu pai. Tinha
quase certeza de que ele lhe diria que falaria com a mulher para acabar 
com aquela ideia absurda de casamento; mas em vez disso... ele a levou 
para o sof, simplesmente, sem dizer nada!
- O senhor tem que me salvar, papai - insistiu. - Sei que o senhor no 
gosta de se opor a mame, mas no quero me tornar uma duquesa... quero 
casar com o homem que amo! Acho que, no baile de ontem... encontrei um 
rapaz que poderia amar... se me deixassem v-lo mais vezes...
Seu pai no disse nada, e ela continuou:
- O que posso fazer, papai? Se o senhor no me ajudar, mame me forar a 
fazer uma coisa que considero horrvel e degradante! E quem garante que o 
tal duque... vai me querer? Ele nunca me viu! Por que mame est tramando 
uma coisa dessa? Por qu?
Embora fizesse aquela pergunta, sabia muito bem a resposta.
Por menos que se interessasse, j tinha ouvido suas amigas fofocarem, nas 
festinhas e nos bailes, sobre as jovens americanas que se casavam com 
nobres europeus. Lembrava-se de como todas ficaram excitadssimas quando 
Jenny Jerome, cuja famlia todos conheciam, casara-se com lorde Randolph
Churchill. E quando Consuela lenaga tornara-se duquesa de Manchester, os 
comentrios foram gerais.
Seria estpida se no tivesse percebido como as mes das garotas de seu 
crculo faziam todo o possvel para casar suas filhas com homens de 
famlias europeias tradicionais.
Uma senhora muito rica e famosa, por exemplo, estava programando um baile 
em homenagem a um prncipe italiano, com o intuito de faz-lo interessar-
se por sua filha. Outra j havia convidado toda Nova York para uma 
recepo em honra de um conde ingls...
Apesar de no se preocupar muito com aquele tipo de coisa, era bvio que 
as mulheres da alta sociedade de Nova York disputavam entre si, para ver
quem casava melhor sua filha... e era bvio tambm que sua me entrara
naquele jogo para ganhar.
- No vou fazer isso, papai! - disse ela de novo. Fugirei... Ou melhor... 
fugiremos juntos. Podemos nos esconder num lugar onde mame no nos 
encontraria...
- Voc sabe que isso  impossvel, minha cara, e voc vai ter que se 
casar um dia...
- Sim,  claro, mas quero me casar com algum escolhido por mim. Algum 
que eu ame... como nas histrias que o senhor me contava quando era 
pequena!
- Gostaria muito que fosse assim, minha filha. Mas voc  inteligente o 
bastante para encarar os fatos. Onde encontraria um homem digno de voc?
- Acho que o encontrei... ontem  noite. Depois de um breve instante, seu 
pai retrucou:
- Vi voc danando com o rapaz em quem pensa.
- Se o senhor o conhece, fale-me dele, papai!
-  um jovem muito educado. Conversei bastante com ele ontem  noite. Ele
pediu para ser apresentado a mim, porque queria pedir minha permisso
para voltar a se encontrar com voc.
- Oh, papai...
- No entanto, muita gente me disse a razo de Eric Dorisdale estar aqui
em Nova York.
- A
O tom de voz do sr. Vandervilt era to estranho que Nathaly o encarou 
curiosa. Ele veio para c, querida, para arrumar uma esposa
rica.
Aquelas palavras de seu pai fizeram-na sentir seu corao
despedaar-se em mil estilhaos.
- Voc  muito inexperiente, querida, e no sabe julgar o verdadeiro 
interesse das pessoas.
- E o senhor acha... que aquele rapaz s se interessou por mim... por que 
sou rica?
- Tenho certeza de que, no comeo, ele ficou impressionado com sua 
beleza, querida, mas, depois, deve ter achado uma maravilha a 
possibilidade de vir a se casar com uma jovem rica e lindssima!
Nathaly levantou-se.
- Do jeito que o senhor fala... tudo parece to horrvel e... sujo! Como 
poderei encarar um homem... qualquer homem... sem saber se est 
interessado no meu dinheiro... ou em mim?
Ela parou de falar. Seu pai pegou sua mo e forou-a gentilmente a 
sentar-se de novo. Abraou-a com carinho e voltou a falar:
- Agora me escute. Todos tm algum problema na vida. J pensou se voc 
tivesse nascido cega ou com qualquer outro defeito fsico? Ou se fosse
herdeira de um nome desonrado?
Nathaly emitiu um pequeno murmrio e ele continuou: - O dinheiro pode
ser uma ddiva do cu, mas  tambm um problema. Voc precisa se
acostumar a viver com ele como o cego deve treinar seus outros sentidos
para compensar a falta da viso.
- Entendo o que est dizendo, papai. Mas, ao mesmo tempo, ser que pode
existir no mundo um homem que me ame sem interesse?
O sr. Vandervilt sorriu e disse:
- Voc ainda encontrar muitos homens que a amaro, mais cedo ou mais
tarde, tambm acabar se apaixonando
31
por algum. Mas no mundo, onde voc vive, minha filha, para uma moa ser 
livre ela precisa se casar primeiro!
- Mas... quando a mulher se casa, ela deixa de pertencer ao pai e  
me... para pertencer ao marido, papai!
Enquanto dizia aquelas palavras, pensava que sua me era completamente 
livre, e que seus amigos, homens e mulheres, eram escolhidos por ela, sem 
qualquer interferncia do marido. Alm disso, j tinha ouvido falar dos 
vrios casos amorosos extraconjugais entre os conhecidos de sua famlia, 
e que, apesar disso, eram considerados membros respeitveis da 
sociedade...
- Mas o senhor est sugerindo, papai, que eu devo me casar com o duque... 
sem am-lo?
- Acho que  muito errado ele no vir at Nova York para conhec-la. Se 
eu tivesse algum poder, fique certa de que faria questo que seu 
casamento fosse aqui, na cidade em que nasceu, e no na Inglaterra!
- Mas, ento, o senhor vai deixar mame fazer isso comigo? - gritou
Nathaly. - Como o senhor consegue, papai?
- Qualquer coisa que eu dissesse a ela no faria a menor diferena. E, se 
quiser saber mesmo o que eu penso sobre tudo isso, querida, vou lhe dizer 
que voc no tem outra alternativa, a no ser aceitar.
- No consigo entender seu ponto de vista, no consigo
- Vou lhe explicar - disse o sr. Vandervilt, pegando a mo da filha e 
apertando-a com afeio. - Voc sabe muito bem que  uma das herdeiras 
mais ricas dos Estados Unidos, no s pela fortuna que herdar quando sua 
me e eu morrermos, mas tambm pelo dote que sua av lhe deu quando voc 
nasceu, e que, hoje em dia,  uma quantia fabulosa, que cresce cada vez 
mais.
- Sim, sei disso, papai.
- Isso significa que voc  uma das pessoas mais ricas, no s dos 
Estados Unidos, mas tambm da Europa e, quem sabe, de todo o mundo! 
Nessas circunstncias, muito dificilmente um homem decente a pediria em 
casamento.
32
Nathaly encarou o pai completamente surpresa e ele continuou:
- O que estou falando  verdade, e voc precisa aceitar. Em geral, os 
homens no querem ter uma mulher mais rica do que eles. Os ingleses, 
especialmente, detestam ser confundidos com qualquer caa-dotes.
- Ento, o senhor est dizendo que nenhum homem decente me pediria em 
casamento?
- Digamos que, dificilmente, um homem decente desejaria se casar com 
voc. Mas, por outro lado, voc pode tirar uma vantagem dessa situao.
- Como assim?
- Ora, minha filha, j que voc tem tanto dinheiro e precisa se casar, 
mais cedo ou mais tarde,  melhor que escolha algum que, pelo menos, 
possa lhe dar um ttulo de nobreza bem alto. E, neste sentido, o noivo 
que sua me escolheu para voc  timo!
- O duque! - exclamou Nathaly.
- Para falar a verdade, sei que sua me estava querendo encontrar um 
prncipe para voc, mas, parece que, no momento, no existe nenhum livre 
na Europa. E um duque ingls  quase equivalente a um prncipe. Sua me 
descartou os reis, pois a coitada descobriu que so uns doidos, que s 
gostam de se casar com princesas de sangue real!
- O senhor est brincando, papai, mas, para mim, a coisa  muito sria.
- Sei disso, querida, e, por isso mesmo, assim que soube das conversas de 
sua me com lady Edith Burn, tratei de averiguar a vida do duque de 
Otterburn.
- E o que descobriu?
- Que ele no esperava herdar o ttulo, j que tinha um irrno mais 
velho. Soube tambm que fez uma brilhante carreira no Exrcito e que a
interrompeu quando se tornou duque de Otterburn e teve que se preocupar 
com as dvidas
da famlia.
Que sero pagas com... meu dinheiro - disse Nathaly, num tom de voz
amargo.
- Se no fosse por isso, tenho certeza de que ele no se rebaixaria
tanto, casando-se com uma americana.
- Ele se rebaixar? Essa  boa! Por que diz isso?
- Os aristocratas ingleses se consideram to importantes que julgam estar 
fazendo um favor quando damos a eles algum dinheiro para que reformem os
velhos castelos de seus avs e modernizem as fazendas e possam, assim,
receber nossas filhas mais confortavelmente.
- Mas o senhor no dar dinheiro a ele, no , papai? O senhor vai me 
manter aqui do seu lado, no  mesmo?
- Infelizmente, isso ser impossvel, querida. Sua me est obcecada com 
a ideia de dizer a todos: "Minha filha  uma duquesa! "
- Ento, o senhor est me dizendo que, se no for com esse duque, ser 
com outro?
- Exatamente! No entanto, esse duque me parece melhor do que os outros 
nobres que sua me anda sondando, desde que voc fez quinze anos. Sei que 
no adianta muito dizer isso. Nathaly, mas acho que a escolha de sua me 
foi tima. Poderia ter sido muito pior!
- Oh, papai! Pensei que o senhor fosse me proteger! Que fosse brigar com 
mame! Que faria tudo para impedir que eu me casasse com um homem que no 
est interessado em saber se sou branca, negra, amarela ou azul! com um 
homem que s quer saber do meu dinheiro!
- Isso no  verdade, querida. Tenho certeza de que, a essa altura, lady 
Edith j deve ter dito a ele o quanto voc  linda.
Nathaly chorava. Seus ombros frgeis tremiam terrivelmente e seu pai a 
abraou com ternura.
- No chore, querida. Se vai ser difcil para voc, imagine para mim! J 
pensou como ser minha vida sem voc? Sentirei tanta saudade!
Havia muita tristeza na voz do sr. Vandervilt e Nathaly o abraou mais 
forte.
- Ser muito difcil para ns dois, papai.
Querendo anim-la um pouco, ele voltou a falar num tom de voz mais
alegre:
Mas eu poderei visit-la sempre, se seu marido me convidar. Passarei uns 
seis meses por ano ao seu lado. Na certa, o duque deve ter quadros 
maravilhosos!
- Se ele tiver... numa hora desta, j deve t-los vendido!
- Talvez ele no possa, minha filha. Mas, com quadros ou sem quadros, 
prometo a voc que a visitarei sempre na Inglaterra!
Ela ergueu a cabea. Estava linda, apesar dos olhos vermelhos de tanto 
chorar.
O pai olhou-a e pensou como era horrvel sua filha ter que se casar com 
um homem que s estava interessado em sua conta bancria. Mas no via 
outra soluo para a vida de Nathaly. Era melhor que ela se casasse com 
algum como o duque, do que com algum aventureiro que a desrespeitasse e 
a fizesse sofrer... Por sorte, os nobres ingleses eram muito 
responsveis. Na certa, o duque de Otterburn saberia respeit-la e no 
faria nada que a magoasse.
Nathaly levantou-se e caminhou at um quadro de Sisley, que estava na 
parede oposta ao sof.
Admirou a tela por alguns instantes, desejando impregnarse da paz que 
aquela paisagem irradiava com tanta intensidade.
Tinha vontade de fugir, de evaporar... Inconformada, correu novamente 
para os braos do pai.
- Oh, papai querido, ajude-me, por favor! Como serei capaz de fazer uma 
coisa que julgo ser errada... e ainda continuar vivendo?

CAPITULO III

- Lady Edith Burn, senhor! - anunciou um criado, e Seldon, que estava
lendo o jornal na biblioteca, levantou-se rapidamente para atender a 
prima.
Estava chegando de Southampton, onde fora esperar os Vandervilt, j que 
Seldon se recusara terminantemente a ir.
- Como voc pode ser to grosseiro, Seldon! - dissera Edith, cheia de 
raiva com aquela atitude do primo. - Isso no tem o menor cabimento! 
Afinal, se voc recusou-se a casar nos Estados Unidos, pelo menos poderia 
ser um pouco gentil, e ir receber sua futura esposa e seus futuros sogros 
no porto, no  mesmo?
- Tenho mais coisas a fazer, minha cara - replicara ele com desdm. - E 
no estou com a mnima vontade de ficar no porto esperando um navio que 
pode atrasar semanas.
Quando entrou na biblioteca, Edith estava muito bonita e elegante, mas,
embora tentasse aparentar calma, ele percebeu claramente que a prima
estava bastante nervosa, pela maneira como cruzava e descruzava os
braos.
- No consigo acreditar como as coisas podem sair to erradas comigo! - 
exclamou ela, quase desesperada, estendendo a mo enluvada para que 
Seldon a beijasse.
- Mas o que foi que aconteceu, Edith?. - Alm de o navio ter se atrasado,
aconteceram muitas outras coisas!
- Talvez os deuses estejam do meu lado, minha cara, fazendo o mximo para 
que o casamento no se realize! retrucou ele com cinismo, sabendo que 
suas palavras a deixariam mais irritada, ainda.
- Francamente, Seldon! Voc torna as coisas ainda mais difceis! Se 
soubesse que teria de tratar com duas pessoas to rabugentas como voc e 
Mary Vandervilt, no teria me metido nesta histria! Vocs dois parecem 
que adoram complicar tudo o que poderia ser simples!
- Teria sido timo se voc no tivesse resolvido se meter nesta histria! 
- retrucou Seldon.
Edith suspirou, nervosa. Tinha sido extremamente difcil convencer o 
primo, de uma vez por todas, de que a nica coisa a fazer para salvar o 
castelo e todas as outras propriedades da famlia Otterburn era casar-se 
com a riqussima herdeira americana Nathaly Vandervilt.
No entanto, mais difcil ainda tinha sido convencer a me de Nathaly a 
concordar com que o casamento fosse realizado na Inglaterra.
Mary Vandervilt queria um casamento magnfico para sua nica filha. 
Pretendia dar uma festa sensacional, cheia de opulncia e que estonteasse 
por completo o mundo inteiro. Sabia muito bem que, se a filha se casasse 
na Inglaterra, o casamento no teria nunca o impacto com que tanto 
sonhava.
Edith tivera que ser extremamente persuasiva para faz-la mudar de ideias 
e aceitar a determinao inflexvel de Seldon de no fazer papel de 
"palhao" para agradar os americanos.
Ele havia sido categrico com Edith, quando falaram sobre o assunto:
- Ouvi dizer que os norte-americanos transformam os casamentos em
verdadeiros carnavais. Sei que eles convidam tanta gente, e que os
convidados fazem tanta folia, que, em
geral, acabam todos na polcia! Saiba que nunca me prestaria a um
espetculo desses, nem que fosse me casar com a filha do rei Midas! 
Detesto exibicionismo e ostentao!
Se Seldon estava determinado a casar-se em seu pas, Mary Vandervilt 
estava obcecada pela ideia de que a filha deveria casar-se em Nova York. 
Por isso, Edith gastara horas e horas de pacincia e muito charme para 
convencer os Vandervilt a virem para a Inglaterra.
O casal e a filha deveriam ter chegado a Southampton uma semana antes, 
mas, como o navio pegara muitas tempestades em alto-mar, aportaram com 
quatro dias de atraso. Para piorar a situao, j bastante delicada, 
vrios passageiros estavam doentes.
Depois de sentar-se e de tirar o echarpe azul-marinho, que contrastava 
elegantemente com o vestido e o casaquinho azul e branco, Edith relatou 
todos aqueles tristes acontecimentos a Seldon e concluiu:
- E para coroar todos esses desastres que estou lhe contando, um dos 
passageiros doentes do navio  o pai de Nathaly, o sr. Vandervilt!
- Ele enjoou a bordo? - perguntou ele, maldosamente.
- Mas  claro que no! Fique sabendo que o sr. Vandervilt  uma pessoa 
muitssimo viajada! - replicou Edith exasperada. - Ele quebrou a perna e 
tivemos que lev-lo a Londres para consultar um ortopedista. Por isso no 
vim ontem, como lhe prometi.
- E como ele est passando? O problema  muito grave?
- O sr. Vandervilt est bem. Instalou-se no Hotel Savoy junto com Mary e 
Nathaly. Consegui que ele fosse atendido prontamente por si Horace 
Deakin, que, como voc sabe,  um dos mdicos da rainha. O dr. Deakin 
contratou duas enfermeiras e prometeu que, daqui a um ms mais ou menos, 
ele estar andando normalmente!
Seldon arregalou os olhos surpreso e perguntou exultante:
- Isso ento quer dizer que o casamento ter que ser adiado?
Claro que no, Seldon! Mary Vandervilt disse que
tudo correr normalmente como havia sido planejado.
Preferiu no contar a ele que a me de Nathaly no quisera adiar o 
casamento porque tinha trazido consigo vrios reprteres de Nova York 
para cobrirem a cerimnia. Por mais rica que fosse, no queria ficar 
custeando as despesas deles por mais de uma quinzena.
Se ele soubesse daqueles reprteres!... Edith no lhe contara nada sobre 
a personalidade de Mary, e Seldon sequer imaginava o poo de arrogncia 
que era sua futura sogra. Como tentava dominar a vida de todos e como
fazia tudo para que sua opinio prevalecesse sempre!
Depois de um suspiro, Edith voltou a falar:
- Por falar em Mary, ela e Nathaly chegaro amanh  tarde e ficaro 
hospedadas na casa de William Farringdon.
Muito inteligente, ela j combinara com lorde Farringdon, marido de sua 
prima, a hospedagem dos Vandervilt em sua manso, pois no seria adequado 
que a noiva ficasse no castelo de Otterburn antes da cerimnia de 
casamento.
- Voc agiu certo, Edith querida - retrucou Seldon com cinismo. - A casa 
de William  muito mais confortvel do que a minha.
- No  esse o caso, primo. Acontece que ser William quem levar Nathaly 
ao altar. Foi por esta razo que achei melhor se conhecerem antes. Voc 
sabe, a menina est muito chateada com o acidente do pai. Ela queria que 
fosse ele a lev-la at o altar!
- Neste caso, prima, tenho certeza de que ela no se importar nem um 
pouco em adiar o casamento por mais um ms... at o pai sarar da perna...
- No adianta insistir, Seldon. Alm do mais, no se esquea de que todos 
os seus empregados esto doidos para que chegue logo o dia da festa!
A nica coisa com que Seldon concordara sem restries fora a festa que 
teria de dar a seus empregados no dia do
casamento. J encomendara inmeros barris de cerveja e de cidra, e os 
cozinheiros do castelo j comeavam a preparar os doces e os salgados.
Alm disso, era mesmo impossvel adiar o casamento sem esbarrar em 
enormes dificuldades. No menos que seiscentos convites tinham sido 
enviados por Edith, auxiliada por um secretrio do sr. Fossilwaithe.
Muitos presentes j haviam chegado e entupiam a galeria de quadros. Edith 
ainda lhe dissera que precisaria desocupar no mnimo mais um aposento, 
pois Mary Vandervilt devia ter trazido muitos outros presentes dos 
Estados Unidos.
A reao de Seldon, quando vira o volume de objetos que chegava de todas 
as partes da Inglaterra, fora muito interessante:
- Acho que no conheo nem a metade dessas pessoas que esto mandando 
presentes de casamento para mim. No sei por que gastam tanto dinheiro 
comigo. As pessoas realmente so muito estranhas...
- No seja bobo, Seldon querido - dissera Edith, rindo divertida da 
ingenuidade do primo. - No se esquea de que  o casamento de um duque! 
E, alm do mais, todos sabem muito bem que, depois da cerimnia, voc 
ter dinheiro bastante para esbanjar ao seu bel-prazer, como seu pai 
fazia anos atrs!
Os olhos de Seldon endureceram repentinamente, e ele murmurara mal-
humorado:
- Se voc pensa que desperdiarei o dinheiro de minha futura mulher como 
meu pai fez com o da nossa famlia, est muito enganada! Felizmente, no 
herdei esta caracterstica horrvel do meu pai!
-  claro que no estou pensando numa coisa desta, meu querido. Mas, por 
outro lado, acho que seus vizinhos devem estar sentindo muita falta das
festas grandiosas que seu pai realizava, e devem torcer para que elas
voltem a acontecer, depois que estiver casado com a rica Nathaly.
40
- No darei festa nenhuma! No farei despesas  toa, antes de ter
arrumado todas as minhas propriedades.
- Voc no pode se esquecer de que talvez sua mulher queira se divertir 
um pouco, Seldon... Voc sabe como so as jovens, quase sempre elas 
adoram festas...
Ela dissera aquilo s para brincar, mas havia percebido que ele ficara 
srio e ressentido. Decididamente, ainda no se acostumara  ideia de ter 
que se casar com uma mulher rica, por puro interesse!
Como Edith conhecia muito bem a psicologia dos homens, achara melhor no 
falar da extrema beleza de Nathaly para Seldon. Queria que ele lhe 
perguntasse sobre sua futura esposa. Estava ansiosa para ver at onde ia 
a curiosidade do primo...
Mas, em vez disso, ele, a cada dia, se tornava mais e mais reservado. 
Edith tinha esperana de que, quando o casamento fosse anunciado 
oficialmente, Seldon ficasse mais tranquilo, mas, ao contrrio, ele 
parecia simplesmente detestar falar sobre o assunto e, mesmo quando 
algum o procurava para felicit-lo, evitava a todo custo qualquer 
comentrio acerca de seu futuro.
Quando Seldon lhe serviu um clice de xerez, Edith falou sorrindo:
- Para dizer a verdade, Seldon, esse seu casamento est me deixando 
exausta. Tenho certeza de que voc no gostaria nem um pouco de estar no 
meu lugar, tocando todos os preparativos
- Desculpe se eu no me mostro mais agradecido, querida - disse ele 
sorrindo.
- Est tudo bem, meu caro - retrucou Edith, pensando no quanto seu primo 
era atraente e sedutor. Depois de um suspiro enigmtico, voltou a falar 
com tranquilidade: Acho uma pena voc no ter contato com o sr. 
Vandervilt antes do casamento.  o homem mais inteligente e simptico que 
j conheci, e estou certa de que voc iria adorar conhec-lo.  uma 
pessoa to delicada, to encantadora e sensvel!
Por outro lado, ela dava graas a Deus por Seldon no ter se encontrado 
com os Vandervilt quando eles aportaram na Inglaterra. Simplesmente 
detestaria Mary Vandervilt, que chegara de pssimo humor, por ter sofrido 
de enjoo e tonturas constantes durante a viagem.
Seus modos chegavam a ser grosseiros. Fora aos gritos que exigiu que lhe 
reservassem trs vages de primeira classe para a viagem at Londres. 
Alm dela, do marido e de Nathaly, Mary fizera questo absoluta de trazer 
consigo uma secretria com seus dois assistentes, quatro damas de 
companhia, duas para ela e duas para a filha, e dois criados para o 
marido, alm de uma quantidade imensa de malas e pacotes de todos os 
tamanhos e pesos.
Alm desse verdadeiro batalho, ainda trouxera seis guarda-costas, e 
vrios reprteres e comentaristas que fariam a cobertura do casamento.
Quando a famlia finalmente havia se instalado no Savoy, Edith pde 
perceber que a bagagem de Mary no era composta apenas por roupas e pelos 
presentes de casamento. Fizera questo de trazer as mnimas coisas dos 
Estados Unidos, como se a Inglaterra no fosse um pas civilizado!
Quis comentar tudo aquilo com o primo, mas achou melhor ficar calada. Era 
bem capaz de ele desistir do casamento e preferir passar o resto da vida 
pedindo esmola de porta em porta, a ter que conviver com uma sogra to 
sem classe! Em lugar disso, ela voltou a falar de Nathaly:
- Estou chateada por Nathaly, coitadinha. Sei que ela adora o sr. 
Vandervilt, e desejaria muito que ele presenciasse a cerimnia de 
casamento.
Seldon abriu a boca, como se fosse dizer alguma coisa, mas fechou-a em 
seguida. Edith continuou:
- Voc a conhecer amanh  noite, no jantar ntimo que preparei. Seremos 
apenas trinta ou vinte e nove pessoas, j que o pai dela no poder estar 
presente.
- Fossilwaithe me disse que recebeu um telegrama cha
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mando-o a Londres, assim que os Vandervilt chegaram. Vejo, ento, que ele
no vai se encontrar com Nathaly e a me, j que as duas esto vindo para 
c.
- No se preocupe, Seldon. Vi o sr. Fossilwaithe no Savoy. Ele estava com 
todos os papis que devem ser assinados pelo sr. Vandervilt ou por Mary.
- Acho que deveria ficar feliz pelo fato de Fossilwaithe ser to 
competente, mas confesso que no estou. Na verdade, mal posso controlar o 
impulso de cancelar de vez esse casamento, que est me deixando cada dia 
mais nervoso.
- Se tiver a coragem de fazer isso, nunca mais falarei com voc ou 
olharei na sua cara! - exclamou Edith indignada. - Passei muito tempo 
arranjando esse casamento e, se de uma hora para outra voc puser tudo a 
perder, acho que sou capaz de mat-lo, Seldon!
- Talvez fosse bem melhor a morte, a ter que suportar a tortura desse 
casamento...
- No vamos comear de novo, querido! Enquanto fui buscar os Vandervilt, 
voc achou algum tesouro escondido em suas propriedades?
-  claro que no!
- Alguma rica herdeira inglesa veio implorar que se casasse com ela?
- No!
-  Pois ento, Seldon! Sua nica alternativa  casar-se com Nathaly!
Voc precisa tanto dos milhes dos Vandervilt quanto eles precisam do seu 
ttulo de duque!
- Voc  mestra em simplificar demais todas as coisas, Edith!
 - Escute, meu caro, estou muito cansada para ficar discutindo. Vou
subir e descansar um pouco. Alguns de nossos Parentes j chegaram?
Ele enumerou os nomes de alguns velhos membros da famlia que tinham 
vindo de vrias partes do pas. Estavam

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todos curiosssimos para conhecer a rica herdeira norte-americana que
salvaria o ducado do Otterburn da runa total.
Porm, Seldon tinha absoluta certeza de que, mesmo aliviados pela chegada 
dos dlares de Nathaly, seus parentes no demonstrariam simpatia alguma 
pela pobre americana que seria sua mulher dali a alguns dias. Eles a 
desprezariam pelo fato de ela no ser nobre e talvez at chegassem a 
critic-la por suas atitudes ou pelo seu modo de vestir.
Detestava toda aquela situao. Sentia-se tremendamente humilhado e 
constrangido por ter que casar-se com algum que no conhecia, s para 
salvar o nome da famlia.
Em certa ocasio, ele dissera a Edith:
- Como voc acha que poderei respeitar uma garota que se casa comigo no 
pelas minhas qualidades, mas pelo fato de eu ser duque?
- No seja ridculo, primo! - argumentara Edith prontamente. - Voc sabe 
to bem quanto eu que Nathaly no tem nada a ver com esse acordo. Voc 
acha que deram a ela o direito de escolher? Mas  claro que no! - Edith
olhara a para o primo e voltara a falar, externando um pensamento
repentino: - Sabe que no sei como voc no se casou ainda. Seldon? com a
sua aparncia, acho que muitas mulheres se apaixonaram por voc! Do jeito 
que  charmoso!
Ele sorrira. No achava importante contar a Edith suas conquistas
amorosas. Todas as mulheres que conhecera no tinham sido realmente
importantes para ele, no passaram de passatempo, de intervalos sensuais
e agradveis numa vida cheia de disciplina e perigos.
Preferia mulheres mais velhas e experientes, e por isso agora andava 
muito preocupado. Dizia cinicamente a si mesmo que teria de pagar 
direitinho todo o dinheiro que receberia pelo casamento com anos e anos 
de aborrecimento, aguentando sua futura mulher, uma menina 
desinteressante e, com certeza, muito pouco inteligente.
- S Deus sabe quantas bobagens fala uma mocinha de
dezoito anos - murmurara para si mesmo uma noite, quando pensava em seu 
futuro.
Sabia que iria passar meses restaurando suas propriedades e tinha planos 
de comear aquele trabalho no dia seguinte ao casamento, mas Edith 
cortara aquela sua ideia numa conversa que tiveram, quando ela lhe havia 
perguntado:
- Onde pensa passar a lua-de-mel? A me de Nathaly est ansiosa para 
saber.
- Lua-de-mel? - retorquira completamente surpreso.
- Vocs tero que passar a lua-de-mel em algum lugar, e todos acharo 
muito estranho se no se decidirem a fazer uma viagem ao exterior.
- No tinha pensado nisso, Edith, mas acho que podemos passar aqui mesmo, 
na Inglaterra. Afinal, que mal haveria?
- Imagine s! Vocs poderiam ir para a Frana, isso sim! A manso que seu 
pai comprou deve ser um lugar timo para se iniciar uma feliz vida de 
casado! Ento, o que acha da minha ideia? tima, no?
- Manso? Na Frana? Mas do que  que voc est falando, Edith? No sei 
de nada disso!
- Ora, Seldon! Certamente o sr. Fossilwaithe contou para voc que, dois 
anos antes de morrer, seu pai comprou uma manso em Nice, num lugarzinho 
adorvel, chamado Beaulieu. Deve ser uma casa maravilhosa, pois ele 
gastou uma verdadeira fortuna, reformando-a.
- No sabia da existncia dessa casa. -.
Seldon lembrava-se vagamente de que, na longa lista de despesas de seu 
pai, havia um item sobre alguma propriedade na Frana, mas nem se
preocupara muito com aquilo.
Levado pela insistncia de Edith, havia entrado em contato com o sr. 
Fossilwaithe e, para sua surpresa, ficara sabendo que seu pai no s 
comprara uma manso em Nice, mas tambm um pequeno iate, que atualmente
estava ancorado no porto de Villefranche. Por sinal, aquele iate
representava uma das maiores dvidas deixadas por seu pai!
Assim que soubera das novidades, procurara Edith:
- Estou pensando seriamente em vender tanto a manso quanto o iate.
- Pelo amor de Deus, Seldon! No faa isso, pelo menos at terminar sua 
lua-de-mel!
- Por qu?
- Pela simples razo de que o sul da Frana  exatamente o lugar onde a 
me de Nathaly desejaria que sua filha comeasse a vida de casada. Posso 
at imaginar Mary Vandervilt falando para as amigas enciumadas: "Minha 
filha, a duquesa, est passando a lua-de-mel no sul da Frana, onde meu 
ilustre genro tem uma manso. Logicamente, ele tambm possui um iate, que
levar os dois pombinhos at as romnticas ilhas gregas! "
Edith no s imitara a voz de Mary, como tambm o tpico sotaque 
americano. Apesar da situao, Seldon no pudera deixar de rir.
Sentira vontade de dizer que no queria passar lua-de-mel nenhuma com uma 
mulher que nem conhecia, mas havia resolvido ficar quieto. Afinal, 
gostava da ideia de ser proprietrio de um iate, mesmo que por pouco 
tempo.
-  claro - dissera ele. - A sra. Vandervilt e a filha no devem ser 
desapontadas de forma alguma. Gostaria que voc descobrisse o tamanho 
exato da manso e pedisse a Fossilwaithe que mande preparar o iate, pois 
esqueci de faz-lo.
Como Edith esperava, Mary Vandervilt respondera sua carta entusiasmada 
com a notcia de que a lua-de-mel seria no sul da Frana. Contava tambm 
que j encomendara uma poro de trajes especiais para Nathaly usar na
viagem de iate.
Enquanto lia a carta, pensava que era mesmo uma sorte o primo no ler as
colunas de fofocas dos jornais americanos, pois tinha certeza absoluta de
que eles deviam estar repletos de notas e notinhas sobre o casamento
Vandervilt-Otterburn.
Quando Edith subiu, Seldon saiu do castelo e foi dar uma volta perto do 
lago. Quando falava muito sobre seu casamento, acabava sentindo-se mal, 
precisando respirar ar puro.
Passeando pelos arredores do castelo, comeou a pensar que aquele 
casamento, na verdade, no precisava acontecer. Afinal, que importncia 
tinha que suas casas estivessem caindo aos pedaos, com goteiras e 
paredes esburacadas? Qual era o problema se os jardins precisavam de 
reforma? Poderia muito bem viver com tudo daquele jeito, pois era jovem 
e, aos poucos, arrumaria tudo!
Mas... e as pessoas que dependiam dele, o que fariam sem dinheiro? O 
velho Briggs, por exemplo, que servira seu pai e seu av por quarenta 
anos, o que seria dele?
- No - pensou Seldon. - Preciso aposent-lo e dar-lhe um chal e uma boa
penso para que passe o fim de sua vida com tranquilidade, ao lado da
esposa. E para que isso acontea, tenho que me casar!
Mas aquela situao era extremamente humilhante! Como se casar com uma 
mulher que nem conhecia? E, alm do mais, nunca pensara seriamente em 
casamento. As mulheres, para ele, eram simples divertimentos passageiros!
Depois de casado, teria que aguentar uma mesma mulher para o resto da
vida, e como seria isso? -Uma inglesa, na certa, seria dcil e se
submeteria facilmente ao seu comando, mas como tratar com uma americana 
rica? Talvez ela fizesse questo de lembrar-lhe a todo momento que viviam 
com o dinheiro dela... seria um inferno!
- No Natal, no aniversrio de minha mulher, comprarei os presentes com o
dinheiro dela - pensava ele. - Beberei  sua sade com o vinho que ela
comprou e, se quiser algo Para mim, quem ter de abrir a carteira ser
ela!
Sabia que, mesmo que Nathaly no lhe dissesse nada, seria como se ela 
vivesse falando a todo instante:
-  o meu dinheiro que lhe permite viver no castelo, 
O meu dinheiro que paga os criados, e  o meu dinheiro que Paga as festas 
que voc oferece aos seus amigos e parentes!
Aqueles pensamentos sombrios e desagradveis no saam de sua cabea e
foi com muita tristeza que caminhou at o estbulo. Sabia que s
cavalgando at a exausto conseguiria dormir tranquilo.
- Como est se sentindo, papai? Est melhor da perna?
- perguntou Nathaly, no luxuoso quarto do Savoy, s margens do rio 
Tamisa.
- Mais ou menos, minha filha - replicou o sr. Vandervilt, sorrindo 
debilmente. - Acho que o mdico que lady Edith Burn me indicou  
realmente um profissional bastante competente, e ele me disse que a 
fratura no foi muito grave. Deus queira que daqui a alguns dias eu j 
esteja bem melhor e possa caminhar um pouco pelo quarto.
- Fico feliz em ouvir isso, papai. Nem posso acreditar como isso pde
acontecer ao senhor! Nunca vi tamanha falta de sorte em toda a minha vida!
- Pois . No sei como fui cair daquela escada do navio! Mas isso prova
que eu no sou um marinheiro to experiente assim, no  mesmo? Se o 
navio estava balanando muito, eu deveria ficar na cabine, e no sair 
para caminhar!
Enquanto o sr. Vandervilt falava, a expresso de Nathaly era extremamente 
angustiada e aflita. Apertando fortemente a mo do pai, ela murmurou:
- Papai... no posso... casar... sem o senhor presente. Acho que no vou 
conseguir...
- Temia muito que voc fosse dizer isso, filha querida, mas no podemos 
contrariar a vontade de sua me. J est tudo acertado...
- Acho que no vou conseguir. Tenho certeza de que no poderei encarar o 
duque... sem o senhor por perto, papai. Ser uma situao to difcil!...
- J falamos sobre isso antes, querida, e lhe disse que as coisas no 
sero to ruins como voc pensa - falou o sr. Vandervilt com pacincia, 
querendo tranquilizar a filha. - E voc me prometeu que tentar se 
comportar direito, no ?
AR
Tentarei, papai... mas no ser nada fcil. Realmente, no sei bem como 
agir...
- Voc tem que encarar a situao como um desafio, minha filha, um 
desafio extremamente difcil, mas que precisa vencer a todo custo!
- Amo tanto o senhor, papai! Daria tudo para que ns no nos 
separssemos! Se pudssemos passar mais alguns anos juntos, seria to 
bom.
Nathaly estava de cabea baixa e no percebeu a expresso do rosto de seu 
pai. Ele amava profundamente a filha. Se ela sofreria com saudades suas, 
para ele, a vida sem Nathaly j no teria mais significado algum, pois 
era a razo de sua existncia.
Infelizmente, no podia fazer nada para ajud-la, a no ser rezar com 
fervor para que no sofresse, como muitas outras moas que se casaram 
naquelas mesmas condies.
Sua filha teria que aguentar o duque para o resto da vida, pois nem podia 
pensar no divrcio, que seria um verdadeiro escndalo para a nobre e 
tradicional famlia Otterburn.
Querendo dar um pouco de conforto a Nathaly, ele voltou a falar:
- Escute, minha querida. Quando falamos uma vez sobre o budismo, 
concordamos que, da vida, a gente s recebe aquilo que der. Se voc quer
amor, ter que dar amor; se voc odiar, ento ser odiada. Esta  a lei
que rege o mundo.
- Entendo perfeitamente o que o senhor est querendo me dizer, papai,
mas, infelizmente, desta vez, no posso concordar com senhor - retrucou 
Nathaly, sentindo-se magoada-  Est me pedindo para que eu ame um homem
que s Pensa no meu dinheiro, na fortuna fabulosa da qual sou a unica
herdeira. Pode deixar, papai, darei o que ele tanto quer. Todo o meu
dinheiro ser dele, assim que ns nos cagarmos Mas o senhor pode ter 
certeza de que no darei ao duque outra coisa que no seja meu dinheiro. 
Ele nunca ter
O meu amor...
AQ
- Escute, minha filha, oua com muita ateno o conselho que tenho para
lhe dar: faa o possvel para que seu futuro marido venha a am-la, e
ver maravilhada que ser  muito mais fcil voc tambm comear a am-lo...
O amor,  algo muito estranho e fascinante, Nathaly. Ele chega at quando
menos esperamos e cresce vertiginosamente, como uma linda e forte rvore
frutfera, que crava suas razes na terra. - O sr. Vandervilt fez uma pausa,
suspirou profundamente e continuou: - Todos os seres humanos querem
desesperadamente o amor, pois ele simplesmente  tudo o que  h de mais
importante na vida; e o amor, quando voc realmente o encontrar, colocar
um fim imediato em todas suas tristezas, recompensar todos os seus
sacrifcios e todas as tremendas agonias que voc sofreu.
O senhor Vandervilt dizia aquelas palavras com muita calma e tambm com
bastante sabedoria. Como Nathaly no dizia nada, ele virou o rosto e
percebeu que a filha chorava.
50

CAPITULO IV

Enquanto o trem particular se dirigia rapidamente para Londres, Seldon 
chegou  concluso de que nunca tinha passado um dia to desagradvel em
toda sua vida.
No tinha nutrido a menor esperana de gostar da cerimnia de seu 
casamento, mas tambm no imaginava que seria uma ocasio que o deixaria 
quase doente de tanta raiva.
Tudo comeara na noite anterior, quando um criado havia trazido um 
bilhete da casa de lorde Farringdon, dizendo que os planos dos Vandervilt 
tinham sido alterados.
O sr. Vandervilt chegaria com a esposa e a filha num trem particular, que 
os deixaria na parada mais prxima da propriedade dos Farringdon.
O bilhete tambm informava que o jantar teria que sofrer um atraso na 
hora combinada, pois os Vandervilt no poderiam chegar at as nove horas.
Seldon j se irritara profundamente, pois os outros parentes, que estavam 
hospedados nas redondezas, no poderiam Ser avisados da mudana de 
horrio. Estariam no castelo antes das oito horas e teriam uma longa 
espera at que o gruPo americano finalmente chegasse.
Edith imaginara que aquela sbita mudana nos planos se devesse ao fato 
de Nathaly ter se recusado a vir sem o pai, as preferira no dizer nada 
ao primo.
Mesmo assim, estava aliviada porque Seldon conheceria o sr. Vandervilt e 
o acharia to encantador, que talvez no se importasse muito com a
personalidade dominadora de Mary.
Mas mesmo esse plano no chegara a dar resultado.
O esforo da viagem havia causado tantas dores ao sr. Vandervilt, que ele 
chegara  manso de lorde Farringdon sem condies de viajar mais uma 
hora at o castelo, para participar do jantar programado.
Assim, deixando Edith consternada e Seldon aborrecido, o sr. Vandervilt e 
a filha ficaram ausentes do jantar da famlia.
- Parece um caso de Hamlet sem o prncipe - comentara Edith para alguns 
poucos parentes que tinham mais senso de humor do que os demais.
Entretanto, assim que Mary Vandervilt entrara no castelo, Edith tinha 
percebido que, como imaginava, Seldon mal conseguira conter a irritao.
Provavelmente muito aborrecida e, sem sombra de dvida, na defensiva, 
Mary Vandervilt parecia no estar nos seus melhores dias.
O fato de estar magnificamente vestida, embora um tanto vulgar, no 
suavizara a impresso causada nos parentes de Seldon, que, como ele 
imaginava, tinham vindo dispostos a criticar a noiva.
Usando um vestido, de modelo parisiense, que, obviamente, custara uma
fortuna, Mary Vandervilt, no seu desejo de impressionar, no havia
percebido que, para as regras de etiqueta inglesa, sua aparncia
exuberante era ostensiva em excesso.
 Seu traje teria sido mais apropriado para um baile ou para ser usado por
alguma atriz de teatro. Ela ainda trazia diamantes enormes nos cabelos, 
ao redor do pescoo e no contorno do corpete do vestido. Seus pulsos 
pesavam com vrios braceletes e os anis em seus dedos quase ofuscavam a 
viso.
52
para Seldon, ela simbolizava tudo pelo qual ele vendera seu ttulo de
duque... e a ele mesmo...
No entanto, conseguira fazer um esforo sobre-humano para ser agradvel
com sua futura sogra e tentara no reparar que os olhos dela observavam
atentamente cada detalhe do castelo.
A noite havia sido boa para os outros convidados, pois, enquanto 
esperavam o grupo de lorde Farringdon chegar, consumiram uma quantidade
enorme de garrafas de champanhe.
J bem tarde, os cavalheiros se juntaram s mulheres na sala de estar, e
os parentes que moravam longe do castelo comearam a se despedir.
- Esperaremos ansiosos para conhecer sua futura esposa, amanh, Seldon -
diziam todos eles.
Seldon achara que havia um tom muito claro de comiserao em suas 
palavras e tinha ficado bastante ressentido.
Edith, por sua vez, podia relatar como Mary Vandervilt tinha sido 
desagradvel quando as mulheres se retiraram para a sala de estar, 
enquanto os homens bebiam e fumavam ainda  mesa.
Em vez de tentar ser calmamente agradvel com as mulheres mais velhas da 
famlia, Mary tinha passado dos limites ao querer impression-las, 
gabando-se da riqueza e das posses do marido, da posio social 
incomparvel que os Vandervilt ocupavam em Nova York e da fortuna que 
Nathaly traria Para a famlia.
Fizera-questo de enfatizar quem proporcionaria o dinheiro para pagar as 
reformas necessrias no castelo e na fazenda e para saldar as dvidas 
contradas pelo ltimo duque de Otterburn.
No apenas Seldon, mas tambm todos os outros parentes se envergonhavam 
profundamente da inconsequncia do ltimo duque. Por isso, ouvir uma
estranha falar da dvida daquele modo, tornava a situao ainda muito
pior.
Quando a porta principal foi fechada atrs de Mary Vandervilt, que fora
levada do castelo por uma carruagem de lorde Farringdon, Edith emitira um
profundo suspiro de alvio.
Pela expresso de Seldon, havia percebido o que sentia, mas no estava 
com a mnima inteno de distutir isso com ele.
- Estou terrivelmente exausta e amanh ser outro dia bastante cansativo.
Vou direto para a cama, agora... Boa noite, Seldon querido...
- Boa noite, Edith. Durma bem!
Ele se afastara sem dizer mais nada e, pelo tom de sua voz, Edith pudera 
perceber a depresso que o envolvia.
Seldon havia ficado um longo tempo sentado na biblioteca, antes de 
resolver se deitar, sabendo que no conseguiria dormir direito naquela 
noite.
Entretanto, acabou por conciliar o sono, deixando de lado seus problemas, 
mas fora acordado pelo som de vozes e movimento de pessoas.
Por um momento, imaginara que assaltantes deviam estar tentando roubar os 
presentes. Logo em seguida, havia se lembrado vagamente de que Edith 
mencionara que o trem particular que trouxera os Vandervilt de Londres 
tambm transportava presentes, que chegariam de manh ao castelo.
Olhou o velho relgio sobre o criado-mudo: ainda no eram cinco horas. Os 
empregados da sra. Vandervilt comeavam a trabalhar mais cedo do que se 
costumava na Inglaterra.
Finalmente, resolveu se levantar, pois era impossvel descansar com tanto 
barulho e, para seu espanto, havia descoberto que praticamente uma tropa 
de homens estava invadindo o castelo e um grupo de trabalhadores estava 
erguendo, no jardim, o que parecia ser uma imensa coroa de flores.
Achava totalmente desnecessrio os Vandervilt quererem colocar ali mais 
flores, alm das que j havia e que, sendo naturais da regio, tornavam a 
paisagem mais atraente.
Mesmo assim, imaginava ser uma tolice criticar ou alterar qualquer
arranjo de seus futuros sogros. Entretanto, havia ficado furioso por no
ter sido, ao menos, consultado.
As flores estavam sendo colocadas na frente dos aposentos em que 
aconteceria a recepo e no centro do gramado onde, se o dia estivesse 
bonito, os convidados iriam caminhar e conversar sob o sol.
com o passar do dia, esta fora apenas uma das inumerveis irritaes que 
o corroeram.
Tarde demais para suspender a ordem, descobrira que haviam sido 
encomendadas inmeras caixas de champanhe para servir aos empregados e 
arrendatrios, para quem ele j tinha pedido cerveja e cidra.
Alm de ser uma despesa extra que Seldon no tinha condies de cobrir, a 
maioria dos empregados no estava acostumada com essa bebida e, portanto, 
inevitvel e desnecessariamente, acabariam todos bbados.
Tambm ficara perplexo ao ver que Mary Vandervilt tinha mandado colocar 
imensas grinaldas de flores na escadaria do vestbulo principal.
Quase todos os aposentos da recepo estavam literalmente repletos de 
botes brancos, em tanta quantidade que obscureciam as pinturas e at os 
mveis.
Quando Seldon se preparava para a cerimnia, vestindo seu uniforme de 
soldado, no pudera deixar de pensar que era a ltima vez que o usava. 
Ficara ainda mais deprimido, Pois tinha deixado de lado todos os planos 
que concebera e, com aquele casamento, seu futuro lhe parecia negro.
Entretanto, fora ao descobrir quantos fotgrafos e reprteres se 
infiltravam em cada canto do castelo, que ele no havia conseguido mais 
reprimir toda a raiva que sentia.
- Que diabos esto fazendo aqui todos esses homens de imprensa? -
perguntara a Edith.
- Eu tinha certeza de que voc ficaria um pouco chateado, Seldon, mas...
- Chateado? - dissera, quase gritando. - H alguns minutos encontrei dois 
deles no meu quarto, fotografando a cama; e sabe o que me perguntaram?
- No fao a mnima ideia, querido...
- Se era ali que eu iria dormir com minha esposa!
- Sinto muito, Sheldon!
-  s isso que voc me diz? Eles me informaram que vieram de Nova York a
convite de Mary Vandervilt! Eu lhes disse o que achava do comportamento 
que estavam tendo e eles anotaram tudo o que eu falava naquelas suas 
malditas cadernetas! Por pouco no bati em todos eles!
- Mary quer que o casamento seja muito noticiado, mas estou certa de que 
nenhuma dessas notcias aparecer em algum jornal daqui, primo.
Seldon fitara-a como se nem conseguisse encontrar palavras para se 
expressar. Em seguida, havia respirado fundo e dissera:
- Tudo isso me faz muito mal. Insisti em me casar na Inglaterra para 
evitar esse tipo de vulgaridade que acho degradante, tanto para mim 
quanto para a famlia.
- Concordo com voc e s posso dizer novamente que sinto muito. Juro que 
eu no sabia que Mary Vandervilt traria reprteres americanos para c.
Seldon fizera um gesto de desespero e impotncia e sara da sala.
Edith olhara pela janela, de onde se podia ver os trabalhadores no 
gramado e havia concludo que realmente tinha toda razo de estar to 
ansiosa.
Para Seldon, o ponto culminante daquela tarde intolervel, fora, sem 
dvida, ter que receber os cumprimentos da longa fila de convidados, que
se estendia pelo vestbulo, atravessava a sala, e ia at o jardim.
Como o dia estava lindo e parecia haver mais convidados do que o
esperado, no ltimo momento, Edith pedira que o bolo de casamento, ou
melhor, os bolos, fossem levados da sala de estar para o jardim.
Seldon ficara to agastado ao ver o bolo que Mary Vandervilt encomendara,
que havia sido extremamente difcil Edith impedi-lo de jog-lo fora.
Os cozinheiros do castelo tinham trabalhado dia e noite no preparo do 
bolo tradicional dos casamentos da famlia.
com trs andares, tinha sido feito a partir de uma velha receita, e a 
cobertura de glac, cuidadosamente aplicada, retratava o escudo da 
famlia Otterburn, uma mo erguida segurando uma espada.
O mesmo escudo, perfeitamente modelado em acar, elevava-se no ltimo 
andar do bolo.
Ele elogiar calorosamente os cozinheiros, deixando-os orgulhosos ao 
dizer que considerava o bolo uma obra de arte, e que chegava quase a ser 
uma pena que ele tivesse de ser devorado pelos convidados.
- Mesmo assim, todos vo gostar de comer, sr. duque
- dissera o cozinheiro mais velho, que estava no castelo h mais de 
quarenta anos.
- Eu tambm estou ansioso para comer uma fatia replicara ele sorrindo, 
sabendo que todos estavam felizes com seus elogios.
Quando lhe mostraram o bolo que Mary Vandervilt impingira  festa, Seldon 
achara-o uma monstruosidade vulgar e seu primeiro impulso havia sido o de 
destru-lo.
No entanto, no momento de cortar o bolo com sua espada, conforme a 
tradio, ele fora obrigado a cortar os dois e, para piorar a situao, 
contara que o americano estava centralizando mais a ateno dos 
convidados.
Isso porque no possua trs, mas sete andares e a base era to grande 
quanto uma roda de carro.
No existia nada de refinado na sua decorao, que consistia de 
ferraduras de sorte, tufos de flores brancas e sinos em profuso. Sobre 
a ltima camada, havia dois bonecos, um inteiramente de pedras
preciosas e o outro com uma Citao do seu uniforme do regimento.
Depois que os bolos foram cortados e estavam sendo servidos para os
convidados, um mestre de cerimnias, importado dos Estados Unidos por 
Mary Vandervilt, pediu a palavra.
Falando com um forte sotaque nasal americano, ele incentivara todos a 
beberem  sade dos noivos.
E quando, obedientemente, todos ergueram suas taas, uma sbita exploso 
parecera balanar as janelas do castelo. O arranjo de flores no centro do 
gramado se abrira e lanara um enorme pssaro para o ar, de onde caram 
dzias de rosas vermelhas.
Aquela exibio, planejada apenas para efeito de publicidade, causara uma 
confuso enorme e os parentes de Seldon, principalmente os mais velhos, 
depois das exclamaes de susto, emitiam murmrios de desdm.
Ele vira a excitao dos fotgrafos com suas cmaras e dos reprteres com 
seus blocos e, no importava o que Edith lhe dissesse, compreendera que
aquele, sem dvida alguma, seria um ponto abordado pelos jornais
ingleses, alm dos americanos.
Somente anos de autocontrole haviam impedido Seldon de dizer o que 
pensava daquela inovao to vulgar.
Finalmente, ele e sua esposa, bombardeados por ptalas de flores 
providenciadas por Mary Vandervilt, saram do castelo numa carruagem 
aberta, puxada por cavalos enfeitados com grinaldas de rosas, Seldon 
sentira que tinha passado por um redemoinho de horror e indignidade que 
jamais esqueceria.
Entretanto, a provao ainda no tinha terminado, pois o caminho at a 
estao levava-os a atravessar o pequeno vilarejo que fazia parte da 
propriedade, onde passaram sob um arco decorado com flores e bandeiras.
 A carruagem parara e, enquanto Seldon recebia os cumprimentos do
habitante mais velho, Nathaly era presenteada com um buque de flores por
uma criana pequena que, no ltimo momento, no queria larg-lo.
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Quando chegaram  estao, apreensivo, ele vira uma pequena multido e 
mais decoraes desnecessrias.
- Espero que seja a ltima recepo que teremos que enfrentar - comentara 
asperamente.
De repente, Seldon havia percebido que era a primeira vez que dirigia a 
palavra  esposa desde que tinham deixado o castelo.
Na verdade, no tinha olhado para Nathaly quando ela juntou-se a ele no 
altar, nem quando tinham percorrido juntos a curta distncia entre a 
Igreja e o castelo.
A igreja era to prxima que teria sido ridculo ir de carruagem num dia 
to lindo. Seldon, de brao dado com Nathaly, conduzira-a pelo atalho, 
coberto misteriosamente por um tapete vermelho.
Percebendo que ela acompanhava seu passo com dificuldade, notara que a 
cauda de seu vestido, ridiculamente longa, estava sendo carregada por 
trs pequenos pajens vestidos em cetim branco  moda da poca de Lus 
XIV.
A cauda era pesada demais para eles e as mes de dois dos meninos 
assistiam-nos, para que no a deixassem encostar no cho.
Seldon imaginara que os pajens tinham sido providenciados por Edith, pois 
havia reconhecido que as mes deles eram suas parentas.
A cauda que os impedia de andar mais depressa era evidentemente
americana e ele a detestara, como todas as outras coisas que
transformaram a cerimnia simples que imaginara em algo to ridculo.
Lembrou mais uma vez que, por insistncia de sua sogra, tinham sido 
casados por um bispo, assistido por outros quatro clrigos.
Como a igreja era pequena, havia padres demais reunidos,
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o altar e os assentos do coro estavam lotados j que havia sido
trazido, de Londres, um outro coro, para aumentar o dos habitantes da
vila, cuja tarefa comum era se apresentar em  casamentos e funerais.
O fato de cantarem como anjos no amenizara a sensao de Seldon de que, 
apesar de todos os seus esforos, o casamento tinha se tornado um 
espetculo circense.
Enormes arranjos de lrios enchiam o santurio da igreja e cada banco 
tinha buques de flores fixados com longas fitas brancas que iam at o 
cho, provocando um efeito teatral.
Chegaram  estao e ele verificara, estarrecido, que a pequena 
plataforma estava coberta por um tapete vermelho com enormes vasos de 
lrios colocados na entrada, onde estavam os fotgrafos e vrios 
jornalistas americanos, que cercavam os recm-casados como um enxame de 
abelhas.
Ele fora bombardeado com perguntas extremamente impertinentes e ouvira 
sua esposa tentar respond-las com voz suave e bastante assustada.
Felizmente, o trem particular que trouxera os Vandervilt de Londres
estava esperando por eles e Seldon, pegando no brao de Nathaly, forara
passagem entre os fotgrafos.
Entraram no vago e, apesar das portas fechadas, as mquinas fotogrficas 
estavam nas janelas, assim como os rostos dos observadores.
Ele apontara as poltronas da extremidade do vago.
- Vamos sentar ali e ficar de costas para eles. Duvido que consigam fazer 
alguma coisa.
Nathaly o obedecera sem replicar. Afinal, para grande alvio de Seldon, o 
trem havia partido e, entre acenos e gritinhos, deixara lentamente a 
estao.
No conseguindo mais exercer o controle que tivera o dia inteiro, ele 
disse:
- Nunca pensei que estaria sujeito a passar por uma demonstrao to 
grande de vulgaridade!
Levantou-se enquanto desabafava e atravessou o vago-sala  procura de
outro compartimento em que pudesse ficar sozinho.
Ficou mais irritado ainda ao descobrir que o trem era maior do que 
imaginava e que vrios reprteres e fotgrafos eram seus companheiros de 
viagem.
No querendo se envolver com eles, pois sabia que qualquer coisa que 
dissesse seria anotado e publicado nos jornais, voltou para o 
compartimento de onde acabara de sair.
Viu que Nathaly, que estava olhando pela janela, rapidamente abriu uma 
revista quando ele entrou.
Resolveu sentar no outro lado do vago e abriu um jornal. Viajaram em 
silncio durante algum tempo, at que alguns garons entraram, oferecendo 
comida e bebida.
Ele percebeu que, naquele momento, deveria se comportar de maneira 
civilizada, no importando o que pensasse a respeito da esposa e dos 
arranjos de sua me.
S conseguira trocar algumas palavras com o sr. Vandervilt, que tinha 
sido levado para o castelo na carruagem de lorde Farringdon, um pouco 
antes da cerimnia de casamento.
Sua voz calma e refinada, sem trao de sotaque de espcie alguma, sua 
aparncia bonita e a maneira como cumprimentou o futuro genro, mostraram 
a Seldon que ali estava um homem de quem ele poderia gostar.
Ele se orgulhava de julgar bem o carter das pessoas e, no momento em que 
conhecera o sr. Vandervilt, tivera a certeza de que ele era completamente 
diferente da esposa.
Infelizmente, no tiveram tempo para conversar, pois logo depois que 
chegou ao castelo, o pai de Nathaly fora levado para a igreja numa 
cadeira de rodas, onde assistira a lorde Farringdon levar sua filha para 
o altar em seu lugar.
Naquele momento, o garom colocou uma mesa na frente de Nathaly, onde 
havia sanduches, bolos, biscoitos e ch que ela devia ter pedido.
Seldon atravessou o vago e sentou-se  sua frente.
- Desconfio que voc e eu fomos as nicas pessoas da recepo que no
comeram nem beberam nada - disse ele, desejando que seu tom de voz
estivesse agradvel.
Ela no respondeu imediatamente e, como estava de cabea baixa, Seldon
no conseguia ver seu rosto por inteiro.
Durante a cerimnia de casamento, Seldon percebera que tivera medo de ver 
como ela era. Na noite anterior, depois que Mary Vandervilt tinha ido 
embora, ele havia pensado que, se Nathaly fosse como a me, seria 
impossvel suportar a vida de casado.
Parecendo se esforar, de repente, ela levantou a cabea e Seldon viu que 
era muito diferente do que imaginara.
O rosto era fino, de uma expresso frgil. Seldon no pde ter certeza se 
os olhos dela, muito grandes, eram azuis ou cinzentos, porm, percebeu 
claramente que estava assustada.
As pupilas estavam dilatadas e, embora ele mal conseguisse acreditar, ela 
o fitava com um inconfundvel terror.
Nathaly baixou os olhos e murmurou:
- Eu... eu acho que voc deve ter... ficado aborrecido com... a exploso 
de rosas.
Ele se espantou, porque a voz dela tambm era muito diferente do que 
imaginava. Era suave, melodiosa e, como seu pai, Nathaly no tinha 
sotaque.
- Aquilo nunca aconteceria num casamento tipicamente ingls.
S depois de falar, percebeu que tinha dito aquelas palavras asperamente, 
do mesmo jeito que teria se dirigido a um soldado teimoso ou a um criado 
que merecesse censura.
- Eu... eu sinto muito... - respondeu ela, novamente em voz baixa.
- Acho que no foi culpa sua - comentou ele, pensando que parecia 
protetor.
- Mame no... me contou o que pretendia... mas assim que... que 
aconteceu, eu... percebi que voc ficou muito aborrecido...
Ele pensou que havia sentido muito mais do que aborrecimento e nada que 
pudesse dizer agora anularia o que tinha sido feito. Sabia muito bem o 
que seus parentes diriam e como os vizinhos se divertiriam com todo 
aquele espetculo burlesco, que fora a festa de seu casamento.
Achando que seria um erro continuar expressando seus sentimentos sobre o 
assunto, agora que tudo j tinha passado, tomou um gole na taa de 
champanhe.
Reparou que Nathaly bebeu o ch, mas no comeu nenhuma das iguarias 
trazidas pelo garom.
Seldon comeu um sanduche de pepinos, tentando fazer alguma coisa 
corriqueira para ajud-lo a controlar a raiva que sentia crescendo dentro 
dele.
Depois de alguns momentos estava calmo o bastante para dizer:
- Imagino que voc esteja cansada. A estrada de ferro tornou a viagem 
para Londres mais rpida. Calculo que estaremos na manso Otterburn por
volta das oito horas da noite.
- Ser... Ser... timo.
Nathaly estava de cabea baixa novamente, e era impossvel Seldon 
conseguir ver todo seu rosto.
Concluiu que estava envergonhada e pensou que realmente deveria ser 
terrvel para qualquer mulher casar-se com um homem que via pela primeira 
vez j no altar.
Entretanto, tinha sido escolha dela, no dele, e esperava que ela se 
tornasse mais loquaz. Seno, o futuro seria extremamente tedioso...
Ele tentou pensar em algo para dizer que diminusse a tenso entre os 
dois, mas acabou desistindo, pois seria difcil conversar tranquilamente 
com o barulho do trem.
Tentou ler um jornal, mas o tempo todo no conseguia deixar de pensar que 
estava casado e que no podia fazer nada, por mais desagradvel que fosse 
a situao.
Comeou a escurecer e Seldon sentiu a cabea pender, constatando que a
falta de sono da noite anterior estava comeando finalmente a pesar.
Fechou os olhos e, sobressaltado, acordou quando o garcom disse, ao seu
lado:
- Estamos entrando na estao, sr. duque. A carruagem deve estar  sua
espera.
com um esforo, Seldon lembrou onde estava.
- Muito obrigado.
Percorreu os olhos pelo vago e viu sua esposa olhando pela janela.
Tentou imaginar o que ela pensara sobre sua de sateno e falta de
disposio para ficar ao seu lado.
- Perdoe-me por ter adormecido, mas passei quase a noite toda acordado -
disse ele, assim que o garom saiu
- Eu... entendo - respondeu Nathaly ainda muito hesitante. - Tambm
tive... muita dificuldade para... dormir...
Seldon foi poupado de responder porque o trem parou na plataforma e o 
chefe da estao, em uniforme de gala e de chapu alto, esperava para 
receb-los com grande entusiasmo.
Depois de calorosos cumprimentos, foram levados para a entrada, onde uma 
carruagem, puxada por excelentes cavalos que tinham pertencido ao pai de 
Seldon, os esperava.
L, uma menininha, filha do chefe de estao, presenteou Nathaly com 
outro buque e havia vrios oficiais com suas esposas, que esperavam para
cumpriment-los.
Finalmente partiram e, aliviado, Seldon pensou que agora s restavam os 
cumprimentos dos criados da Casa Otterburn. Depois disso, no teriam mais 
que suportar tantos desejos de felicidades.
- Jantaremos assim que voc estiver pronta - disse ele, logo que deixaram 
a estao. - Pelo que entendi, sua criada de quarto e meu valete partiram 
esta tarde com a bagagem, assim tudo dever estar pronto para ns.
Nathaly inclinou a cabea, mas no respondeu.
- Amanh teremos que partir bem cedo para pegar a balsa em Dover.
Seldon notou que parecia estar sugerindo que os dois tivessem uma boa 
noite de sono. No mesmo momento, lembrou que aquela era sua noite de 
npcias.
Sentiu que tinha cado numa armadilha, cuidadosamente armada para ele, 
desde o momento em que tomara conhecimento
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das dvidas de seu pai. Entretanto, pensou que, por
mais que julgasse aquele casamento desagradvel, ele se comportaria como
um cavalheiro e faria o que esperavam dele.
Reiterou este sentimento enquanto se vestia para o jantar e desceu para a 
sala de estar um pouco antes que o relgio do vestbulo batesse nove 
horas.
O aposento estava todo decorado com flores brancas e Seldon desejou nunca 
mais na vida ver tantas flores brancas juntas. Em seguida, concluiu que, 
apesar de no ter gostado do casamento, sua esposa poderia t-lo achado 
uma experincia maravilhosa, portanto, seria melhor evitar expressar seus 
sentimentos a esse respeito.
Nathaly reapareceu usando um vestido muito bonito, embora um pouco
exagerado para uma noite a ss com ele.
Seldon desejou ardentemente que dali a alguns anos ela no ficasse como a 
me, pois, caso isso acontecesse, faria tudo para impedir.
Ela se aproximou e ele notou que era muito mais magra do que tinha 
pensado e que caminhava com uma graa e elegncia no muito comuns a 
garotas da sua idade.
- Voc deve estar cansada e uma taa de champanhe lhe far bem - disse,
sem encar-la. - Foi um dia muito cansativo para ns dois.
- Muito... obrigada.
Havia um tremor em sua voz, como se estivesse envergonhada ou com medo.
Nathaly pegou a taa de champanhe e, surpreso, Seldon Percebeu que, 
embora segurasse a taa com firmeza, quase
que a deixava cair, de tanto que tremia.
- Voc ficou em p durante horas enquanto recebemos os cumprimentos
daquela fila interminvel de convidados; sente-se um pouco.
Nathaly sentou-se, como ele sugeriu. Enquanto ela bebia o champanhe, 
Seldon fitou-a e, pela Primeira vez, reparou que seus cabelos eram to loiros, que
chegavam a ter um reflexo prateado. Nunca tinha notado isso nos cabelos
de outra mulher e viu tambm que a pele de suas mos era clara e macia. 
O jantar foi anunciado antes que tivesse tempo de observar seu rosto e, 
depois que ela colocou a taa de champanhe na mesa e se levantou, ele 
ofereceu-lhe o brao.
Teve a sensao de que Nathaly hesitou por um momento, e, enquanto se 
dirigiam para a sala de jantar, ficou certo de que ela estava com medo.
Achou estranho aquilo e preferiu substituir o termo "medo" por "timidez".
Claro que estava tmida! Qual garota que, pela primeira vez, sozinha com 
um homem que nunca tinha visto na vida, mas que era o seu marido, no 
estaria assim?
A mesa da sala de jantar tambm estava decorada com flores brancas, mas 
no tantas a ponto de esconder o candelabro de ouro e os clices que eram 
muito antigos. Seldon tinha certeza de que sua esposa, sendo americana, 
apreciaria muito aqueles objetos de extremo bom gosto.
De repente, lembrou-se da conversa que tivera com sua sogra durante o 
jantar na noite anterior. Ela tinha deixado claro que no importavam os 
objetos que ele possusse, ela e o marido tinham mais e melhores, pois 
tinham visitado lojas da Europa para decorar suas casas.
Edith tinha feito uma descrio detalhada da coleo de pinturas do sr. 
Vandervilt. Mary, entretanto, no poupara palavras para descrever a 
coleo de esculturas, as moblias pintadas de ouro e as tapearias. 
Garantira a ele que tudo o que possua tinha uma histria talvez at duas 
vezes ma is longa do que a dos objetos dos Otterburn.
Seldon, com esses pensamentos, perguntou:
- Seu pai coleciona pinturas e sua me, antiguidades. Voc coleciona 
alguma coisa?
Houve uma breve pausa.
- Livros... Se  que se pode... chamar de coleo.
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- Livros? Primeiras edies, obras raras?
No, no me preocupo com essas coisas - disse Nadaly com simplicidade. - 
Coleciono livros para ler apenas...
Seldon ficou bastante surpreso com aquela resposta. Ento havia se casado 
com uma intelectual!...
- Sobre quais assuntos voc mais gosta de ler? Ou ser que prefere 
romances?
- Gosto de qualquer livro. Para ser franca, os livros foram a nica forma 
que encontrei na minha vida, para poder... para-poder... escapar...
- Escapar? - perguntou ele, completamente surpreso com o rumo que aquele 
assunto tomava. - Escapar do qu?
- Da vida... que eu... levava... Ele estava completamente perplexo.
- Sinceramente, no estou entendendo o que est querendo dizer.
-  difcil mesmo. Acho que parece at ingratido da minha parte...
pensar desse jeito.
- De que jeito?
- Ora,  que eu acho que sempre vivi numa espcie de priso...
- Ser que ouvi bem? - Seldon estava intrigado. Est me dizendo que vivia 
como prisioneira?  isso?
- Sim...
- Em casa ou na escola?
- Tanto em minha casa como na escola...
- Mas que coisa terrvel est me dizendo, Nathaly!
- No pretendia me envolver em explicaes. Quando me perguntou o que
eu colecionava, respondi "livros" porque eles foram a nica forma que
encontrei de poder viajar e explorar o mundo.
- Est dizendo que conheceu o mundo apenas atravs dos livros?
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- Sim, foi exatamente isso que quis dizer.
- Mas por que isso? - Seldon estava confuso.
- Acho que pelo fato de ser... quem eu sou...
- Talvez esteja sendo muito tolo, mas continuo no entendendo o que est 
tentando me dizer. Sempre imaginei que teve tudo o que quis!
Ele achou desnecessrio acrescentar: "com todo o dinheiro que voc tem! 
"
-  muito desagradvel falar... de mim... Acho mais interessante voc me 
contar sobre sua vida na ndia.  um lugar que gostaria muito de conhecer 
um dia.
- Voc deixou passar muito tempo - replicou Seldon.
- Devia ter ido para l quando era mais nova e participado dos bailes nas 
colinas, aproveitando a emoo de ser uma mulher entre muitos homens.
- Jamais permitiram que eu fizesse isso! - exclamou ela, sorrindo 
tristemente. - Mas gostaria de conhecer o povo e os templos indianos, que 
devem ser interessantssimos. Quando papai e eu estudamos budismo, 
percebi que era um lugar que realmente gostaria de visitar.
- Voc estudou budismo? - perguntou ele, quase boquiaberto.
- Sim, e tambm lemos e discutimos bastante sobre hindusmo. Mas, para 
ser inteiramente franca, achei o budismo bem mais interessante e til.
- til para que, posso saber?
- Para aprender a viver - Nathaly falou com simplicidade e sem pretenso. 
Em seguida, deu um suspiro. - Gostaria que me contasse em detalhes como  
a ndia.
Seldon sabia que ela desejava ouvir sobre a beleza de Taj Mahal, a 
imponncia do Forte Vermelho, em Delhi, as multides de peregrinos nas 
margens do Ganges... Entretanto, disse:
- Estou surpreso por voc se interessar pelo budismo. Sempre pensei que,
por ser to racional e, de certa forma
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difcil de entender, fosse uma religio apreciada pelos homens apenas, e
no pelas mulheres.
Teve a impresso de que Nathaly sorria, mas ela estava com o rosto virado 
quando disse:
- Este  o ponto de vista de um homem, mas, na minha opinio, as mulheres 
precisam da serenidade e do fatalismo que fazem parte do budismo.
Ele estava completamente espantado. No lembrava de jamais ter conversado 
com uma mulher sobre as religies do Oriente e nunca esperava ouvir isso
de uma garota to nova, e alm do mais, americana!
- Sei que muitos professores e sacerdotes budistas sentem que... -
comeou ele.
Seldon passou, ento, a falar dos homens que conhecera em suas viagens; 
homens que julgava terem poderes ocultos e que davam consolo e esperana 
a todos que os procuravam.
Falou durante muito tempo, pois percebeu que ela o ouvia com ateno, 
embevecida.
Quando o jantar finalmente terminou e eles se levantaram, Seldon sentiu 
que Nathaly estava assustada novamente.
Voltaram para a sala de estar e ele ficou surpreso ao ver as horas no 
relgio sobre a lareira.
-  muito tarde e acho melhor voc se retirar, pois sua criada deve estar 
acordada  sua espera. Alm disso, amanh, partiremos muito cedo.
- Sim... acho uma... boa ideia.
Seldon levou-a para o vestbulo. Ela parou na frente da escadaria e 
parecia prestes a dizer alguma coisa. De repente, sem uma palavra, 
segurou no corrimo e subiu sem olhar Para trs.
Ele voltou para a sala de estar, pensando que a noite tinha Sido muito
diferente do que imaginara, mas no sabia ainda avaliar se para melhor ou
pior.
S tinha certeza de que j no estava odiando a esposa to violentamente
quanto antes.
- A noite ainda no terminou - pensou resignado. Aquela era sua noite de
npcias e ele era o noivo... Subiu para seu quarto, onde o valete o
esperava. Enquanto
trocava de roupa, perguntou:
- Est tudo pronto para amanh cedo, Jarvis? Na verdade, ele sabia a
resposta.
- Sim, sr. duque. A bagagem ir na frente e s falta guar dar o que o 
senhor vai usar esta noite.
- timo. No queremos correria amanh.
- No, sr. duque.
- Boa noite, Jarvis.
- Boa noite, sr. duque.
O valete saiu e Seldon, usando um robe longo sobre o pi jama, foi at a 
janela.
Puxou as cortinas e ficou olhando as rvores do Hyde Park. As sombras
pareciam misteriosas e assustadoras, mas o cu estava limpo e repleto de
estrelas. Tinha vontade de ca minhar pelo gramado, como faria se
estivesse no castelo, para se sentir livre e tranquilo.
De repente, pensou que salvara o nome da famlia sacrifi cando sua 
liberdade e se ressentia disso desde o dia em que soubera do acordo que
estava sendo feito.
O significado de tudo que acontecera parecia oprimi-lo, se sentia sufocado
pelo dio e desgosto, relembrando o bolo enorme e a exploso que
provocara a chuva de rosas verme lhas sobre as cabeas dos convidados.
Percebeu, ento, que estava com as mos cerradas com tan ta fora, que as
unhas feriam as palmas.
Quando vira a expresso de triunfo no rosto de Mary Van dervilt diante 
daquela cena, teve muita dificuldade para se controlar e no dizer tudo o
que pensava dela e de suas ideias.
Agora, achava que tinha agido com cavalheirismo, e a par te final de sua
obrigao estava  sua espera. Ele deveria cumprir todas as clusulas do
contrato!
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Por um momento, sentiu a cabea latejando, como se precisasse se revoltar
contra o que era esperado dele, contra o que tinha sido contratado para
fazer.
Entretanto, no havia nenhuma outra alternativa!
Era to claro como se tivesse escrito nos documentos assinados por ele, e
referendados com a assinatura do sr. e da sra. Vandervilt.
- Documentos que tinham lhe dado posse de tamanha soma de dinheiro que,
mesmo que realizasse tudo o que era necessrio nas fazendas, no castelo e
em todas as outras propriedades que possua, duvidava que conseguisse
gastar um dcimo do dote de sua esposa.
Sua esposa!
Apesar de ter sentado  sua frente e de ter conversado com ela, ainda no 
conseguia visualizar como era Nathaly.
Tinha a impresso de que s vira o rosto dela vagamente quando ela o 
fitou, com aquela expresso de temor.
Depois disso, ela sempre dera um jeito de ficar com a cabea baixa ou com 
o rosto virado, e Seldon pensou que o perfil de sua mulher tambm era 
muito diferente do que ele esperava.
O nariz era pequeno e delicado, o queixo ligeiramente pontudo e os lbios 
carnudos, que pareciam trmulos.
Por que ela teria medo? E de qu?
Sempre pensara que as garotas americanas fossem extrovertidas e 
independentes, com ideias prprias marcantes, muito diferentes das 
inglesas tmidas que no podiam sair de suas casas at debutarem.
Claro que se enganava ao pensar que Nathaly estava com medo. Talvez 
estivesse trmula porque se sentia mal. com os milhes que possua, nada 
deveria temer, a no ser que a economia americana entrasse em colapso, o 
que era quase mipossvel que acontecesse algum dia.
Seldon no fazia ideia de quanto tempo ficou parado divagando e olhando 
as rvores do parque.
71
De repente, deu um longo suspiro, como se estivesse se despedindo de 
algum, e dirigiu-se para o pequeno corredor que dava passagem para o 
quarto de Nathaly.
Dando um suspiro de resignao, abriu a porta do seu quarto, atravessou o 
corredor e parou na frente da porta do quarto dela.
Girou a maaneta suavemente e, em seguida, com mais fora. A porta no 
abria.
Pensou que talvez os criados tivessem sido idiotas e deixado a porta 
trancada, como acontecia no tempo de seu pai, quando hspedes no-casados 
ocupavam aqueles aposentos.
Voltou para seu quarto, saiu para o corredor de circulao e dirigiu-se  
outra porta do quarto de Nathaly.
Girou a maaneta, pensando que devia pedir desculpas pela falta da 
criadagem, mas, em seguida, descobriu que a porta tambm no se abria.
Tentou mais uma vez, mas no havia sombra de dvida de que a porta estava 
trancada...
Nunca esperara por isso e, de repente, lhe passou pela cabea que Nathaly 
tinha medo dele, justamente como homem!
Ficou parado alguns minutos na frente da porta, pensando no que faria. 
No conseguindo encontrar resposta, voltou pelo corredor, passou pela
frente de seu quarto e desceu as escadas lentamente.
No havia ningum de planto no vestbulo principal, pois o procedimento
ordenado por seu pai era de que, quando a ltima pessoa da casa se 
retirasse para dormir, o criado de planto tambm podia ir para o quarto.
- No sei se o senhor vai querer continuar mantendo o mesmo esquema - 
tinha dito o mordomo, um pouco ansioso.
- Acho um procedimento muito sensato - respondera Seldon. - No vejo 
sentido em fazer um criado ficar de planto a noite inteira sem a mnima
necessidade. Temos guardas-noturnos vigiando a manso, no ?
72
- Claro, senhor duque! Eles do a volta na casa de hora em hora.
- Voc pode fazer o que achar melhor - conclura Seldon, sorrindo.
A manso estava silenciosa e ele entrou na biblioteca, que tambm dava 
para o vestbulo.
As velas tinham sido apagadas, mas, com a luminosidade do vestbulo, 
Seldon foi at a escrivaninha.
Acendeu o candelabro e se aproximou do barzinho num canto da sala.
Estava precisando de uma bebida, o que talvez pudesse ajud-lo a pensar 
no que diria  sua esposa na manh seguinte.
"Ser possvel que ela queira me manter a distncia?", pensou. "Ser que
pretende comear nossa vida de casados de uma forma to anormal? "
com um copo na mo, puxou a cortina e abriu uma folha da janela, pois 
precisava de ar fresco.
Agora no olhava para o Hyde Park, e sim para o jardim lateral da casa,
que, embora no muito extenso, tinha algumas rvores bonitas e, segundo
os jardineiros que o tratavam, costumava ficar repleto de flores.
O luar parecia inundar as rvores de um mistrio que, naquele momento, 
era o mesmo da sua prpria vida.
Como poderia ter imaginado, por um momento que fosse, que sua esposa, to 
ansiosa pelo seu ttulo, trancaria a porta para afast-lo? E no apenas 
uma, as duas portas!
com um sorriso no canto dos lbios, constatou que era a primeira vez na 
vida que uma mulher, em quem estivesse interessado, trancava a porta para 
impedi-lo de entrar.
Era por isso que estava to surpreso!
As portas dos quartos, se no estavam escancaradas, eram sempre muito 
fceis de abrir e havia uma mulher apaixonada e carinhosa  espera dos 
seus beijos.
73
"O que vou fazer agora?", pensou.
Enquanto essa pergunta martelava sua cabea, sem parar, ouviu um rudo.
Ao se virar viu parte do vestbulo e da escadaria, e percebeu que havia 
algum na escada.
Por um instante era apenas uma sombra, mas, assim que se mexeu 
vagarosamente, teve certeza de que era Nathaly descendo as escadas nas 
pontas dos ps, to lenta e suave que, se no estivesse alerta, sequer a 
teria ouvido.
Ainda caminhando nas pontas dos ps, ela chegou ao vestbulo, saindo do 
campo de viso de Seldon, que se aproximou da porta para v-la.
De repente, ainda na biblioteca, ele percebeu que ela no estava  sua 
procura e, sim, tentando abrir a porta da frente da manso!
74

CAPITULO V

No sabendo ao certo que atitude tomar, Seldon entrou com cuidado no
vestbulo. Quando percebeu que Nathaly, apesar do esforo, no conseguia
abrir a porta principal, disse:
- Posso ajud-la, se quiser.
Se Seldon tivesse atirado, ela no levaria um susto maior. Nathaly 
voltou-se para ele, com os olhos cheios de terror.
Ele reparou que usava um vestido negro de viagem, acompanhado por um 
chapeuzinho da mesma cor, fazendo um belo contraste com os cabelos.
- Como seu marido, posso saber aonde vai? - perguntou ele aparentemente 
calmo. - Afinal, j  muito tarde, e est muito escuro l fora...
- Estou indo embora... - murmurou ela, depois de um instante de 
indeciso.
- Isto e bvio, minha cara. E imagino que algum deve estar esperando por 
voc l fora.
- No... de jeito nenhum! - exclamou Nathaly, tremendo visivelmente.
- Est querendo me dizer, ento, que ningum est esPerando por voc?.
- Claro que no tem... ningum... esperando por mim... - murmurou ela com
dificuldade.
- Voc est querendo sair sozinha? E para onde?
- Sinceramente... no tenho a menor ideia... Seldon reparou atentamente 
que os olhos dela pareciam
muito amedrontados sob a luz dos castiais do vestbulo. No cho, estava 
uma maleta de couro parecendo cheia.
- Talvez pudssemos nos sentar um pouco na biblioteca, para que me 
explicasse direito o que est acontecendo. O que acha da ideia?
Nathaly no respondeu. Ele pegou a maleta que, pela aparncia delicada, 
devia servir para transportar jias, e caminhou at a biblioteca, sendo 
acompanhado por Nathaly.
- Aqui realmente est um pouco frio. Acho que vou acender o fogo.
Quando as chamas cresceram e iluminaram o aposento, ele se voltou para 
Nathaly e viu que ela permanecia parada perto da porta.
- Entre, sente-se um pouco para conversarmos - pediu. Ela sentou-se e ele 
fechou a porta cuidadosamente. com
muita calma e segurana, acomodou-se  frente dela e observou-a por um
instante antes de falar:
- Voc me disse que no sabe para onde est querendo ir. Se isso for 
verdade, como pretende se virar num pas estrangeiro, onde no conhece 
ningum?
- Pensei... poder me esconder... num lugar onde... ningum me encontre.
- Acho que esse "ningum" que "voc diz, sou eu, no  mesmo?
- E... mame... - concluiu Nathaly estremecendo, como se, pelo simples
fato de tocar no nome de sua me, algo terrvel pudesse acontecer.
- Agora que voc se casou, sua me no  mais responsvel pela sua vida - 
retrucou ele rapidamente. - O responsvel
por voc agora sou eu, e voc bem pode imaginar a grande
confuso que causaria, caso sumisse no dia seguinte ao do casamento, no
?
- Pensei... que voc ficaria... contente - retrucou Nathaly, sem olhar 
para Seldon.
- Claro que no ficaria contente, minha cara. Muito pelo contrrio, 
ficaria preocupado e com medo, isso sim! Ser que no pensou nem por um 
momento no risco que estaria correndo, caso conseguisse fugir?
- Eu queria... ir embora!
- Mas por qu? - quis saber Seldon, visivelmente preocupado.
- Porque no queria ser... sua mulher... e sei que voc me odeia! Percebi 
isso na igreja, no jardim e no trem. Era como se voc dissesse isso em 
voz alta, para todo o mundo ouvir! - Seldon ficou to surpreso com 
aquelas palavras que no conseguiu dizer nada. Nathaly continuou: - 
Deixe-me ir... por favor... Deixe me ir e encontrar um lugar onde possa
ficar sozinha. Pode ficar com meu dinheiro, com tudo o que  meu... Eu
no me importo. S no quero ficar ao lado de algum que... que no me
quer e que me odeia!
Sua voz era insistente, ao mesmo tempo que terna, e Seldon disse:
- Voc  inteligente o suficiente para saber que as coisas no so to 
simples assim. Se eu, sem querer, maltratei voc hoje, peo minhas 
desculpas.
- Sabia que os arranjos de mame para o casamento iriam desagrad-lo... 
mas nem papai nem eu imaginvamos que ela poderia ir to longe!
- Fiquei realmente contrariado com tudo aquilo pois, como casaramos na
Inglaterra, tinha imaginado uma cerimnia simples, e ntima, com apenas
alguns amigos e uns poucos Parentes mais chegados.
- Sei, mas mame nunca aceitaria uma cerimnia simples desse jeito, pois 
queria que tudo fosse muito grandioso
para que a imprensa noticiasse para os quatro cantos do mundo que a filha
dela estava se casando com um... duque...
- E voc no queria casar-se comigo, no ?
- No... claro que no! No tinha inteno de me casar com ningum...
exceto...
- Exceto o qu? - insistiu Seldon, surpreso com aquelas declaraes de
Nathaly.
Ela desviou o olhar e encarou um ponto vago  sua frente antes de
responder:
- Exceto com algum que me amasse. Mas como isso  totalmente
impossvel... no tinha a mnima inteno de me casar, fosse com quem
fosse...
- No estou entendendo. Voc poderia me explicar melhor o que est
querendo dizer?
Nathaly se endireitou na poltrona. Apesar de seu jeito quase infantil,
Seldon no pde deixar de perceber que j possua o porte de uma mulher
feita e que, sem dvida, era muito bonita, mesmo estando extremamente
nervosa, como naquele instante. Ela tossiu e voltou a falar:
- Quando terminei a escola... percebi logo que mame estava planejando
casar-me com algum muito importante. Papai me explicou que nenhum
homem... digno se casaria comigo... por que sou muito... rica. - Aquela
ltima palavra soou como uma maldio. Ela suspirou e continuou:
- Ele me convenceu de que, se eu no me casasse com voc, talvez corresse
o risco de casar-me com algum ainda... pior...
Depois de um instante de reflexo, Seldon falou:
- No havia pensado no assunto sob esse ngulo, mas acho que entendo o
que seu pai quer dizer. Mas, ao mesmo tempo, deve existir algum homem no
mundo capaz de am-la por voc mesma, e no pelo seu dinheiro...
Ele sabia que o sr. Vandervilt estava certo quando dissera aquelas coisas
 filha. Um homem digno nunca se casaria
com uma mulher to rica. Como se percebesse o que ele estava pensando,
Nathaly voltou a falar:
- Agora que voc entendeu, por favor, deixe-me ir... Encontrarei um lugar 
onde poderei me esconder e onde ningum saber quem sou. Pensei que, se 
encontrasse um lugar perto de um museu ou de uma bela e grande 
biblioteca, teria como me distrair e poderia at ser feliz. Por favor, 
deixe-me ir embora!
- E como pretende se manter? J parou para pensar nisso?
- Sim...  claro. No sou idiota. Tenho algum dinheiro comigo. No  
muito, mas estou levando minhas jias tambm.
- Voc pretende vend-las para conseguir dinheiro?
- Sim. Sei que no conseguirei vend-las pelo que realmente valem... mas, 
certamente, conseguirei um bom dinheiro e poderei viver um bom tempo 
sossegada...
- Mas h um detalhe que voc est esquecendo: uma mulher morando sozinha, 
na certa,  sempre vtima de desaforos e insultos. J tinha pensado
nisso?
- Mas isso no acontecer se eu no falar com ningum e viver quieta no
meu canto...
- No  to simples assim, minha cara. Nenhum hotel a aceitar 
desacompanhada e sem bagagem, e duvido muito que algum proprietrio 
alugue uma casa para uma moa sozinha, sem referncias de espcie alguma!
- Mas por que algum pensaria que h algo de errado em uma mulher viver 
sozinha? - perguntou ela, inocentemente. - Mesmo aqui, na Inglaterra, as 
mulheres, hoje em dia, so mais liberadas do que antigamente...
- As mulheres liberadas da Inglaterra no se parecem nem um pouco com 
voc...
- Ento... o que farei? - quase gritou Nathaly, desesperada.
- Por que no tenta ficar comigo? - perguntou Seldon
79
com tranquilidade. Vendo o seu olhar de desespero, com pletou: - Talvez
pudssemos combinar como viveriamos... Poderamos fazer um acordo; o que
acha? Sem dvida, precisaramos ter tido, no mnimo, uma semana para nos
conhecer melhor, antes do casamento. Mas, agora, teremos vrias e vrias 
semanas para descobrir se realmente formamos um casal. Enquanto isso, 
poderamos ser apenas amigos. Bons amigos, o que voc acha?
- Quer dizer que, por enquanto, eu no seria sua esposa... de fato?
- Sugiro que a gente se esquea um pouco de que somos casados. Vamos agir
apenas como dois estranhos que foran obrigados a viver juntos, por
circunstncias alheias  nossa vontade. Ou pelo destino, se quiser. -
Seldon esperou que Nathaly dissesse alguma coisa, mas, como ela permanecesse
em silncio, continuou: - Se voc aceitar minha proposta descobriremos se
temos ou no alguma coisa em comum, se h alguma chance de que nossa
amizade se transforme num sentimento mais profundo.
- Voc est querendo dizer que eu poderia me apaixona por voc?
-  o que eu mais quero que ocorra no futuro.
- Pensei que voc me quisesse por causa do meu dinheiro... e no por
querer que eu... o ame.
- Entendo. Voc pensa que desejo apenas sua fortuna assim como eu penso
que voc quer apenas o meu ttulo de nobreza!
- Foi mame quem quis... - murmurou ela. - Para falar a verdade, ela
queria mesmo que eu me casasse con um prncipe, mas como no havia nenhum
disponvel...
- Sei muito bem que essa no foi uma troca muito vantajosa, mas quero que
saiba que s aceitei o casamento porque estava desesperado.
- Voc estava desesperado... por causa de... di nheiro?
80
- Pensei que tivessem lhe contado que meu pai deixou muitas dvidas e
que, para pag-las, teria de fechar o castelo e deixar que uma poro de
pessoas que dependem de mim morressem  mngua.
- Ento... voc aceitou casar-se comigo... mesmo me odiando! - exclamou
Nathaly desesperada.
- Voc pareceu ser a soluo para todos os meus problemas, minha cara.
Mas no odeio voc. Odeio apenas o fato de ter me casado por interesse.
Eu tambm queria me apaixonar...
- Voc tambm queria se casar com algum que o amasse por si mesmo, e no
pelo ttulo de duque que possui?
- perguntou surpresa.
- Mas  claro! - replicou Seldon com veemncia. - Se voc no queria se
casar com um homem que s pensasse nos seus dlares, eu tambm no queria
me casar com uma mulher que s estivesse interessada no fato de eu ser um
duque!
- Mas... ser que no havia um outro modo de voc conseguir... dinheiro 
para pagar as dvidas deixadas por seu pai? Uma soluo menos 
comprometedora?
- Qual? Eu sempre fui soldado e no fiz fortuna pessoal - respondeu ele 
impaciente. - E, para terminar esse assunto, eu lhe pergunto: voc 
encontrou um homem que a amasse por suas qualidades individuais?
- No... infelizmente no... - respondeu com tristeza.
- Ento, como seu pai lhe disse, voc fez um timo negcio casando-se 
comigo. Poderia ter cado nas mos de algum bem pior! - retrucou Seldon 
sarcstico.
- Voc deveria deixar-me ir embora para algum lugar onde no precisasse 
me ver. A eu no o irritaria e voc poderia gastar meu dinheiro sem
precisar me odiar...
- Se isso acontecesse, minha cara, eu no tocaria no seu dinheiro.
81
- O que seria uma atitude muito estpida, diga-se de passagem - arriscou
Nathaly.
- Estpida ou no, seria uma atitude digna. Se voc for embora, serei to
pobre quanto era antes de me casar.
- Mas eu fao questo de que aproveite meu dinheiro. Alm do mais, 
legalmente, agora ele  seu!
- No me preocupo com leis, mas sim com meus sentimentos. Ns assinamos 
um contrato, minha cara. Se voc no cumprir sua parte, eu no posso 
cumprir a minha!
- Mas ento... o que devo fazer? - perguntou ela completamente 
desorientada. - O que vou fazer?
- Acho que ns dois devemos agir com muita sabedoria. E como est ficando 
muito quente aqui dentro acho melhor voc tirar o chapu e o casaquinho.
Vou lhe servir um clice de vinho.
- No, obrigada, no quero beber vinho... - E um copo de limonada? -
sugeriu Seldon.
Ele levantou-se e foi at a mesinha de bebidas, onde encontrou uma
garrafa de limonada caseira, ao lado das bebidas mais fortes. Colocou um
pouco do refresco num copo e voltou-se para Nathaly que, naquele momento,
retirava o chapu.
Seus cabelos estavam cuidadosamente presos por um coque atrs da nuca. 
Seldon tinha certeza de que ela esperara a criada de quarto sair e se 
arrumara novamente para fugir.
Deu o copo a ela e voltou at a mesinha para servir-se. Sabia que 
precisava de uma bebida forte para ajud-lo a contornar aquela situao 
inacreditvel. Nunca imaginara que aquilo pudesse acontecer em sua noite 
de npcias!
Enquanto voltava para sentar-se novamente na frente dela, lembrou-se de 
que ela estremecera quando ele lhe entregou a limonada. Nathaly tinha 
medo dele! Nunca imaginou poder atemorizar uma mulher!
- Voc sabe que, se alguns daqueles jornalistas americanos e ingleses que 
sua me contratou, descobrissem que
82
voc desapareceu ou fugiu, o pas inteiro iria procur-la! Seria 
impossvel se esconder, onde quer que seja!
- Voc est me assustando!
- No, s estou lhe dizendo a verdade! E voc j deve ter percebido que o 
melhor que tem a fazer  ficar ao meu lado, em vez de fugir.
- Ficarei... com voc, se prometer...
- No preciso lhe prometer nada, pois j lhe dei minha palavra. Voc j 
deve ter ouvido que a palavra de um nobre ingls vale mais do que muitas 
promessas!
- Ento ns s iremos... nos conhecer... e voc no ir me tocar?
- Prometo que no a tocarei, a no ser que voc me pea. E acho, Nathaly, 
que concordamos com o fato de que as circunstncias que envolveram nosso 
casamento foram muito incomuns. Temos que esquecer a razo pela qual 
estamos juntos e s pensarmos que no podemos nos separar. A partir da, 
devemos estabelecer nossa amizade.
- Isso quer dizer... que terei que ir com voc... amanh?
- Foi o que planejamos, mas podemos ficar na Inglaterra, se voc 
preferir...
- Mas j est tudo arrumado... e eu adoraria conhecer o sul da Frana...
- Acho que eu tambm vou gostar muito da viagem.
- Voc nunca visitou aquela regio?
- Passei apenas dois dias em Villefranche, num navio que levava tropas 
para o Egito.
- Ento a viagem ser... to interessante para voc... quanto para mim...
- Claro! - concordou Seldon entusiasmado. - E, para falar a verdade,
estou louco para ver o iate de meu pai.
- Vou adorar navegar com seu iate - disse ela com tranquilidade. - Sou
uma boa marinheira, voc ver. Meu
pai e eu sequer passamos mal na viagem para c, enquanto mame e todos os 
outros passageiros ficaram enjoados.
- Que bom! Pelo jeito, aproveitaremos bastante o iate. Nathaly colocou o 
copo de limonada na mesinha ao lado
do sof e disse:
- Acho que vou... para a cama. Voc tambm deve estar muito cansado...
- Embora tenha dormido no trem, acho que estou bem cansado, sim.
Ela ia se levantar, mas hesitou um pouco e perguntou, de novo, temerosa:
- Tem certeza... de que est agindo corretamente? E se voc... depois que 
me conhecer melhor, passar a me odiar ainda mais?
- Se isso acontecer, o que acho impossvel, ento teremos que ser francos 
um com o outro e discutirmos nosso futuro com muito cuidado. - Ele fez 
uma pausa e sorriu de uma forma muito atraente, antes de continuar: - Mas 
pode ter certeza de que no odeio voc. Porm, se continuar me odiando, 
ento veremos o que vamos fazer, est bem?
- Nesse caso, o que faramos?
- Tenho uma poro de propriedades em toda Inglaterra. Se voc um dia no 
quiser viver mais comigo, poder ir morar numa delas. Tambm poder 
comprar uma casa para voc, se no gostar de nenhuma das que eu tenho.
Seldon disse aquelas palavras de forma impessoal, embora soubesse que uma 
pessoa frgil como Nathaly nunca conseguiria viver sozinha. Quisesse ou 
no, sabia que dali para a frente teria que proteg-la para sempre...
- Bem, acho que vou me deitar.
- Pois v, minha cara. Amanh, depois de ter descansado bastante, vai 
entender que foi uma sorte no ter fugido. Fique certa de que estar a 
salvo comigo.
Ela pegou o casaquinho, o chapu, e murmurou, um pouco sem graa:
- Acho... que tenho que lhe... agradecer, por ter sido to gentil e 
compreensivo comigo.
- Ento, levo a maleta para voc. Posso sugerir que a guarde num lugar 
seguro at amanh?
- Tem medo de que algum roube minhas jias?
- No, claro que no, mas jias valiosas sempre tentam qualquer homem,
por mais honesto que seja.
Dirigiram-se para a ala dos quartos e, quando chegaram em frente aos
aposentos de Nathaly, ela falou:
- Quer me dar a maleta? Ou... prefere guard-la... voc mesmo?
Seldon percebeu que ela estava querendo dar a entender que no tinha mais
inteno de fugir.
- Para mim tanto faz, Nathaly. S quero que descanse bastante, pois 
amanh iniciaremos uma longa viagem.
- Voc vai me contar sobre a ndia? - perguntou ela de repente, com um 
brilho no olhar que no escapou a Seldon.
-  claro, e se formos visitar as ilhas gregas, como sugeriu sua me, 
poderemos falar um pouco sobre mitologia tambm, o que acha?
- Quer dizer que voc acha mesmo que podemos visitar a Grcia? - 
perguntou, cheia de entusiasmo.
- Podemos ir para onde voc quiser - replicou, ele. De repente, pensou em
completar a frase com: " voc quem est pagando, minha cara". E era
verdade... S iriam viajar por causa dos dlares de Nathaly...
- Mas no sou eu quem devo tomar as decises, Seldon, e sim voc... - 
murmurou ela, abrindo a porta do quarto e entrando, sem se despedir do 
marido.
O sol brilhava intensamente, o calor era imenso e o jardim da manso 
resplandecia sob o cu do sul da Frana.
Nathaly, olhando do terrao, pensava que a beleza daquele mar era
realmente indescritvel.
85
Na verdade, pensava nas palavras que usaria na carta para seu pai, tentando
descrever a beleza natural que enccontraram quando desceram do trem em
Nice.
A viagem tinha sido confortvel e ela no ficara muito cansada. O nico
contratempo ocorrera antes de eles sarem, antes mesmo que descesse para
o caf da manh. Quando Seldon quisera saber das bagagens, fora informado
de que as malas j tinham partido com seu valete, com a dama de companhia 
de Nathaly e com James, que os acompanharia na viagem, para cuidar das
bagagens e dos criados.
- Ah, e trs guarda-costas os acompanharam, senhor dissera o mordomo. - 
H um outro que est esperando pelo senhor e lady Nathaly, para 
acompanh-los at a estao.
- Guarda-costas?
- Sim, senhor. Eles chegaram ontem, num trem especial, e passaram a noite 
aqui.
- Voc est querendo dizer que contrataram quatro guarda-costas para nos 
acompanhar na lua-de-mel?
- Acho que so ordens da sra. Vandervilt, senhor.
- Bem, ento sero canceladas! No quero passar minha lua-de-mel com 
guarda-costas. Isto aqui  a Inglaterra, no os Estados Unidos! E 
estaremos sos e salvos na Frana!
O mordomo olhava desesperado para Seldon, e ele havia continuado, muito 
irritado:
- Sei que a culpa no  sua, Dawkins, mas diga ao guarda-costas que est 
a fora que no quero os seus servios, e que dispensarei os outros trs 
quando chegar  estao.
Ele no dissera nada a Nathaly, mas ela vira os trs homens esperando por 
eles na estao. Antes que o trem partisse, Seldon os dispensara e os 
pobres homens ficaram sem saber direito o que fazer.
S quando ficaram sozinhos, na cabine particular do trem foi que ela 
perguntou:
- Voc no... permitiu que os guarda-costas... nos acompanhassem?
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-  claro que no! Pode ser que voc precise de guardacostas l em Nova
York, Nathaly, mas aqui e na Frana, quem cuida de minha mulher sou eu, e
mais ningum!
- Eles devem ter ficado completamente surpresos quando voc disse que no 
precisava de seus servios - comentou ela sorrindo.
- No me interessa nem um pouco o que sentiram.  ridculo agirmos como 
membros da realeza, com medo de que algum anarquista jogue uma bomba em 
cima de ns!
- Bem, mas voc sabe que os terroristas gostam de atacar as pessoas de 
dinheiro...
- No acontecer nada conosco, pode ficar tranquila. Ele pensou que 
Nathaly fosse contra-argumentar, mas em
vez disso, ela falou:
- Ah, Seldon... sinto como se voc tivesse me tirado da priso!
- Agora entendo por que voc disse que s tem liberdade quando est 
lendo...
-  verdade. Nunca estive em nenhum lugar sem um guarda-costas por perto. 
Quando saa com minha acompanhante para passear no Central Park, sempre 
iam dois ou trs conosco e, quando viajvamos para nossa casa de campo, 
os arredores ficavam cheios de guardas armados. - Ela suspirou, antes de 
continuar: - Minhas colegas na escola riam sempre de mim porque um 
guarda-costas ia me buscar todos os dias no final das aulas.
- S posso dizer que sinto muita pena de voc.
- Para dizer a verdade, quando penso nisso, chego a ter pena de mim 
mesma. Sempre invejei as crianas que podiam correr livremente pelas 
ruas, enquanto eu tinha que ficar trancada em casa. Elas pareciam bem 
mais livres do que eu!
- Sempre achamos que as outras pessoas so mais felizes do que ns, mas 
eu, particularmente, sempre gostei de cada minuto de minha vida, at...
- At... agora?
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- No queria dizer isso - retrucou Seldon com rapidez.
- Estava querendo dizer que fui sempre muito feliz at ter que deixar meu 
regimento, para assumir as dvidas deixadas por meu pai. Depois daquele 
dia, s tive problemas na vida!
- E um deles... sou eu...
- Tenho a impresso de que voc est querendo elogios, Nathaly - disse 
ele, sorrindo.
- No... No! Claro que no! - exclamou apressada e com as faces 
vermelhas de vergonha. -  que... estava pensando... Chego a ter pena de 
voc. So tantos os problemas que tem!
- No precisa sentir pena de mim, minha cara, pois eu, felizmente, sei me 
virar muito bem. Agora, sabe o que eu sugiro para ns dois?
- No fao a menor ideia - disse ela, bastante interessada.
- Sugiro que a gente se divirta bastante. Estamos viajando no 
compartimento de luxo, coisa que eu nunca poderia fazer como soldado ou 
como pobreto...
- Ah, conte-me sobre sua vida no Exrcito - pediu Nathaly, sorrindo.
- Est bem, vou lhe contar sobre os problemas que um soldado enfrenta num 
navio de guerra...
Comeou a falar dos desconfortos de uma viagem num navio de guerra, onde 
a maioria dos soldados fica doente por nunca ter navegado antes.
Ele j percebera que ela era uma tima ouvinte e, durante toda a viagem 
at a Frana, fez vrias perguntas sobre sua vida de soldado, os pases 
que visitara e os povos diferentes que conhecera e estudara.
Seldon ficou surpreendido pelas perguntas inteligentes que Nathaly lhe 
fez e se sentiu feliz por poder lhe explicar muitas coisas que ela 
desconhecia.
Por outro lado, sentia que ela ainda o temia muito como homem. Se ele a 
tocava sem querer, ou pegava no seu brao
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para ajud-la a descer uma escada, percebia que ficava muito incomodada.
Ele achava que, numa situao normal, aquilo devia fazer bem para seu 
ego, mas, naquelas circunstncias, era muito humilhante. Sabia que 
agradava muito s mulheres, mas Nathaly no queria saber dele como homem, 
e muito menos como marido!
E mais, ela sempre estava de guarda para que a relao entre eles no 
ultrapassasse os limites de uma simples e respeitosa amizade.
Durante a viagem, quando ia se deitar em sua cabine particular, Seldon 
pensava em Nathaly mas no mais como antes, quando no passava de uma 
americana sem rosto com quem assinaria um contrato de casamento. Agora, 
ele a via como uma moa inteligente, sensvel e que no se sentia muito  
vontade por ser herdeira de uma imensa fortuna.
Quando imaginava no que poderia ter acontecido a ela, caso tivesse 
conseguido fugir, estremecia. Inocente como era, na certa seria roubada 
ou, ento, levada para algum bordel, de onde no conseguiria escapar.
Ele no sabia que as herdeiras americanas viviam trancadas durante a vida 
toda, sem ter qualquer tipo de experincia com o mundo real. Se Nathaly 
tivesse se casado com algum outro nobre europeu, com certeza acabaria 
sofrendo muito, pois nem todos sabem tratar com gentileza uma moa 
assustada e ingnua.
"Talvez esteja exagerando", pensou, "mas tenho que cuidar muito bem de
Nathaly, para que ela no sofra. Ser que conseguirei? "

CAPTULO VI

Quando Seldon chegou ao convs era muito cedo, o mar estava calmo e havia 
uma nvoa no horizonte que comeava a ser dissipada pelo sol.
No ficou surpreso ao ver que Nathaly j estava l.
Desde que estavam no iate, Seldon percebera que ela possua muita energia 
e o amanhecer de um novo dia era sempre uma emoo que no gostava de 
perder por nada do mundo.
Estava tranquila como nunca estivera em toda a sua vida e ele se 
divertia, observando sua reao por estar livre da represso que sempre a 
envolvera.
Quando Seldon dissera que embarcariam no iate sem destino conhecido, a 
criada de quarto de Nathaly havia se recusado terminantemente a 
acompanh-los.
- Nem que eu fosse conseguir todo o ouro do mundo, eu passaria de novo 
pelo que sofri na travessia do Atlntico, sra. duquesa! - dissera ela com 
firmeza.
Ao perceber que a criada estava inflexvel, Nathaly havia procurado 
Seldon.
Tinha a expresso preocupada e, antes que falasse qualquer coisa, ele 
perguntara:
- Por que est aborrecida?
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- No estou exatamente... aborrecida. O problema  que minha criada se 
recusa a me acompanhar no iate. Estou perdida, sem saber o que fazer.
Ele sorrira...
- Ento, todo o terrvel problema  que voc dever cuidar de si mesma!
Pela surpresa estampada em seu rosto, havia ficado claro que ela nunca 
pensaria nessa possibilidade.
- Se voc tiver alguma dificuldade, garanto que Jarvis, meu valete, 
poder ajud-la - dissera ele. - E, se for necessrio, eu posso atend-la 
tambm.
- Est querendo dizer que posso ir com voc para o iate sem uma criada de 
quarto?
- Claro! No iremos a nenhum lugar muito elegante e cheio de etiquetas e 
espero que ningum queira nos recepcionar. Portanto, se no estiver bem 
arrumada, s ter a mim para critic-la!
- Sei que est... zombando de mim - dissera ela, depois de um breve 
silncio. - ... ridculo, mas nunca na minha vida permitiram que eu 
me... virasse sozinha.
- Ento ser uma experincia nova para voc!
Quando embarcaram no iate sem a austera criada americana, que havia 
ficado na manso, resmungando, Seldon percebera que, embora no tivesse 
dito nada, Nathaly estava gostando de no ter dama de companhia ao seu 
lado constantemente. Havia sido um passo para se sentir mais livre.
Ele podia ouvi-la se movimentando na cabine muito cedo e, geralmente, ia 
para o convs antes que ele aparecesse.
Arrumava os cabelos do mesmo modo que na noite do casamento, quando tinha 
tentado fugir, de uma forma simples, que ficava muito melhor do que 
qualquer outro penteado mais sofisticado.
No Exrcito, Seldon havia aprendido a ter olhos eficientes e atentos para 
qualquer detalhe. Assim, s vezes, reparava que o vestido de Nathaly 
estava abotoado errado nas costas
ou que seu cinto no estava amarrado como deveria, mas nunca tinha dito 
nada para no deix-la constrangida.
Depois de dois dias no mar, ele admitia abertamente para si mesmo que o 
rosto alegre e os olhos brilhantes de Nathaly compensavam plenamente 
qualquer desarranjo em suas roupas.
Conhecendo a extravagncia de seu pai, no ficara surpreso ao descobrir 
que o iate a vapor Lobisomem continha todos os luxos e dispositivos mais
modernos.
Era muito bem decorado e todas as cabines tinham camas de lato muito
confortveis e largas o suficiente para acomodar duas pessoas.
Inicialmente, pensara em reservar, para Nathaly, a cabine principal, que 
seu pai costumava ocupar, mas ela havia preferido a cabine ao lado, que 
era muito mais feminina e decorada em cor-de-rosa, o que a fizera 
comentar:
- Parece uma flor.
Ela falara espontaneamente e havia olhado para ele um pouco apreensiva.
Seldon percebera que ela se lembrava das dez mil rosas do dia do 
casamento e se perguntava se o fato de mencionar uma flor o deixaria 
novamente furioso.
- Eu disse que voc poderia escolher o local que preferisse - respondera 
ele. - Uma cabine que lhe parece uma flor , com certeza, o pano de fundo 
mais adequado a voc.
Era um elogio, mas ficara evidente que, por um momento, Nathaly havia 
duvidado disso.
- Ento, por favor, gostaria de ficar nesta aqui - dissera, depois de uma 
breve hesitao.
O Lobisomem inclua em sua tripulao um excelente cozinheiro chins e, 
conforme navegavam pela costa francesa em direo  Itlia, Seldon 
chegava quase a se sentir culpado por desfrutar de tanto conforto.
O capito e os tripulantes estavam encantados em v-lo, pois consideravam 
at um pouco desmoralizador passarem
tanto tempo no porto esperando um proprietrio de iate que nunca aparecia 
realmente.
Seldon sabia que, no ano anterior, seu pai tinha promovido duas grandes 
festas a bordo do Lobisomem e que, depois, o capito ficara muito 
apreensivo, pensando na possibilidade de todos os tripulantes serem 
demitidos e de iate ser vendido.
Ele no lhes contara que realmente tinha esta inteno antes de se casar, 
e mesmo depois, pois no sabia muito bem qual a necessidade de se possuir 
um iate.
Entretanto, a alegria que Nathaly demonstrava a bordo e o prazer que 
tinha ao pensar em ver as ilhas gregas e talvez ir a Constantinopla, 
faziam-no sentir que, no ponto em que se encontrava seu casamento o iate 
poderia desempenhar um papel muito importante na busca da felicidade 
deles.
J tinha conseguido admitir para si mesmo que era isso o que desejava e 
que seria ridculo continuar odiando a riqueza de Nathaly em vez de 
aceit-la, se no com prazer, pelo menos com gratido.
Depois da primeira semana de casados, o que o deixava mais surpreso era o 
fato de Nathaly ser muito mais inteligente e bem-educada do que 
imaginara.
Tinha absoluta certeza de que nenhuma garota inglesa conversaria com ele 
sobre assuntos complexos at para um homem de sua idade.
Ela no havia exagerado ao dizer que colecionava livros, pois os lia 
avidamente.
No era de surpreender que no houvesse biblioteca a bordo do iate, pois 
Seldon sabia muito bem que a preocupao maior de seu pai no eram livros 
mas, sim, mulheres.
Assim, antes de partirem, tomara a precauo de passar na maior livraria 
existente em Nice e comprar quase todos os livros que julgou pudessem 
interessar Nathaly, de uma maneira ou de outra.
O prazer que ela demonstrou foi o agradecimento de que ele precisava.
93
- Voc comprou mesmo tudo isso para mim?
- Pensei que, se faltar assunto nas nossas conversas, ns dois poderemos 
ler esses livros.
Nathaly riu.
- Acho que voc pensou mesmo foi em me dar um livro para me manter 
calada, quando se cansar de responder s minhas perguntas!
- Eu no tinha pensado nisso, mas voc me deu uma boa ideia!
Ela olhou para as pilhas de livros no cho e perguntou, hesitante:
- Voc no... se importa mesmo por... eu ser to... curiosa?
- Gosto de contar a voc tudo o que sei - respondeu Seldon. - S tenho 
medo de desapont-la por no saber todas as respostas que voc gostaria
de ter ou mesmo de lhe dar uma informao incorreta.
-  emocionante para mim conhecer uma pessoa que j fez tantas coisas. -
Nathaly hesitou, como se procurasse as palavras adequadas, e continuou: - 
Papai viajou pelo mundo inteiro, mas ele s olha para quadros e no para 
pessoas e lugares. O que voc me conta, e o que j fez,  completamente 
diferente de qualquer coisa que j ouvi.
- Acho que voc precisa se conscientizar de que deve viver sua prpria 
vida e no apenas se alimentar das experincias de outras pessoas, sejam
as minhas sejam as de seu pai - disse ele com muita tranquilidade.
Ela fitou-o, ligeiramente sobressaltada, como se fosse uma ideia muito
revolucionria.
- Voc j comeou - continuou Seldon. - Est aqui, casada, e deixou para
trs tudo o que lhe foi familiar durante dezoito anos: Sem sombra de
dvida, isso mostra que j se lanou nessa direo!
- Parece assustador, dito desse jeito. Mesmo assim, gosto de estar aqui e
estou ansiosa pelo que vamos ver amanh,
94
depois de amanh e depois de depois de amanh. Mal posso esperar!
- Esta  a atitude correta. Na verdade, isto  que  viver! Nathaly 
deveria ter ficado pensando naquela conversa,
pois,  noite, quando jantavam no bonito salo todo decorado no tom de 
azul do mar, ela perguntou:
- O que voc sente quando est em perigo? 
 Seldon refletiu por um momento.
- Se voc est pensando em uma batalha ou no confronto com um inimigo, 
acho que  um misto de excitao e medo. - Medo! - repetiu ela, um pouco 
espantada. - Eu pensei que os homens nunca sentissem medo. 
- Qualquer homem honesto e franco deve admitir que tem medo de ser ferido ou morto.
Entretanto, o soldado  treinado para se controlar a ponto de no
demonstr-lo e, na maioria dos casos, o medo realmente acaba sendo menor.
Ela ficou pensativa por alguns momentos.
- Ento, a disciplina ensina o autocontrole.
-  o que deveria acontecer.
Houve um breve silncio. Em seguida, como se adivinhasse o que Nathaly
pensava, ele sorriu e disse:
- Claro que  lamentvel quando os sentimentos de um indivduo se 
sobrepem ao controle imposto e aprendido atravs da disciplina, e se 
revelam a todas as pessoas.
Seldon sabia que os dois pensavam em como no tinham conseguido controlar 
seus sentimentos como deveriam no dia do casamento.
 - Pelo menos, eu no me escondi embaixo da toalha de
mesa! - disse ele, piscando um olho.
Nathaly deu uma risada que ecoou no salo.
- No teria sido nada elegante! No, voc se manteve aparentemente
inabalvel, como um soldado ficaria. Ao mesmo tempo, saam fascas de 
seus olhos, e desconfio que do seu corao tambm.
- Voc est fazendo com que me sinta envergonhado.
- Na verdade, estou sendo injusta - disse ela apressada.
95
- Acho que nenhuma outra pessoa percebeu seus... sentimentos.
- Mesmo assim, vou tentar no deixar mais que isso acontea e, na prxima 
ocasio desse tipo, ficarei bem distante de voc! - brincou Seldon.
Nathaly riu antes de dizer:
- Voc no est sugerindo que a gente se case de novo, no ?
- Deus me livre! Tenho certeza de que, por esse sofrimento, no passo 
mais, mas sua me pode querer comemorar o aniversrio do nosso casamento 
ou, quem sabe, um...
Ele se interrompeu rapidamente, ao perceber que ia dizer: "um batizado".
Numa frao de segundo, pensou que do modo como estava o relacionamento 
entre eles no existia nenhuma possibilidade de, seguindo a tradio dos 
Burn, os sinos repicarem, anunciando o nascimento de um herdeiro.
E tambm no haveria os fogos de artifcio e a festa para os 
trabalhadores e os arrendatrios que sempre acontecia em tal ocasio.
Como se percebesse, naquele momento, que o casamento ainda no estava 
consumado, apesar da tranquilidade com que conversavam e de como estavam 
amigos nos ltimos dias, Seldon colocou o copo que segurava sobre a mesa 
e, colocando a mo sobre a de Nathaly, disse, num tom de voz muito 
diferente:
- Quero ter uma conversa sria com voc.
Lendo seus pensamentos, como j tinha feito vrias vezes antes, ela 
retirou sua mo.
- No... no... no temos... nada sobre o que conversar... nada! Quero ir 
para o convs!
Levantou-se da mesa num salto e, depois de pegar o xale que combinava com 
seu vestido, saiu do salo, antes mesmo que ele tivesse tempo de se 
levantar.
Seldon no tentou segui-la. Ficou parado, apenas ouvindo seus passos 
apressados em direo  escotilha. Comprimiu
96 os lbios e concluiu que tinha sido um tolo por ser to impaciente.
Como estivesse to tranquila e conversasse to espontaneamente com ele 
desde que estavam a bordo do iate, quase esquecera do medo inicial que 
Nathaly sentia por ele. Talvez com otimismo excessivo, imaginara que ela 
tivesse comeado a gostar dele. Entretanto, agora estava de volta ao 
comeo: teria que tentar faz-la acreditar que era seu amigo e no seu 
inimigo.
Embora compreendesse todas as razes que a levavam a se comportar daquela 
maneira, Seldon achava a situao extremamente frustrante e, ao mesmo 
tempo, preocupante.
Como poderia continuar fingindo para sempre?
Compreendia que, no incio, ela queria fugir dele, numa reao natural a 
um casamento feito s pressas. Mas como conseguiria faz-la aceitar que 
ele deveria ser seu marido e... seu amante?
A ltima palavra pareceu martelar sua cabea.
Se quisesse ser honesto, teria de admitir que j desejava Nathaly como
mulher.
Na verdade, teria que ser cego e surdo para no se deixar enfeitiar por 
sua beleza e pelo seu modo doce e fascinante de falar, completamente 
diferente do de qualquer outra mulher que conhecera.
Alm disso, ela parecia conseguir tornar qualquer assunto agradvel, por 
mais erudito que fosse. Talvez at o termo mais adequado fosse 
"encantador", em funo da melodia de sua voz.
Gostava do jeito como se movia, de sua graa e do porte orgulhoso com que 
carregava a cabea erguida.
"Ela  linda!", pensou Seldon. "Maldio, e ela  minha esposa! "
Ele se censurou, no apenas por sua impacincia, mas tambm por se deixar 
inflamar to facilmente pelo ambiente que o cercava, pelo clima romntico 
do navio e, acima de
tudo, pelo fato de estar sozinho, no que deveria ser sua lua-de-mel, com 
uma mulher muito atraente e desejvel.
"Meu Deus do cu, eu teria que ser desumano para no desej-la! "
Mesmo assim, sabia que agira com muita pressa na tarefa de cortejar uma 
mulher de uma forma que nunca fizera antes em toda a vida. E j havia 
sido estpido a ponto de amedront-la novamente, talvez tornando as 
coisas mais difceis do que eram no incio.
De repente, percebeu que era completamente inexperiente nesse campo e que 
teria de usar tticas que nunca empregara antes.
Tentou elaborar um plano de ao, mas tinha a sensao desconfortvel de
que poderia levar muito tempo e, talvez at, no ser bem-sucedido.
E se, em vez de conseguir que ela o amasse, contribusse para aumentar o 
seu pavor, e ela o abandonasse, como tinha tentado fazer na primeira 
noite?
Pensou nos embaraos e dificuldades que uma situao dessas causaria. E, 
tambm, como sua vida ficaria vazia e sem sentido... De repente, estava 
se perguntando desesperadamente o que faria, caso isso viesse a 
acontecer.
Se existia uma coisa que Seldon sempre detestara, com todas as suas 
foras, eram homens casados que mantinham casos amorosos com outras 
mulheres.
Sua opinio era de que esse tipo de comportamento no era digno de um 
cavalheiro, j que as mulheres no tinham as mesmas oportunidades.
Sempre sentia um certo mal-estar quando conhecia homens que estavam atrs 
de um pouco de diverso e tinha a firme convico de que no se tornaria 
um deles. Quando se casasse, o amor clandestino simplesmente no 
existiria em sua vida.
Lembrou-se de Edith, certo de que ela daria risada disso, dizendo se 
tratar de mais um dos seus ideais ultrapassados.
Mesmo assim, essa convico no o abandonava. Entre98
tanto, era bastante inteligente e sabia que um casamento com uma mulher 
que no o quisesse tornaria sua vida muito difcil, frustrada e 
solitria.
Agora que estava casado, Seldon queria uma mulher e tambm filhos, que 
enchessem o castelo com suas risadas alegres. E, sem dvida, iria se
sentir muito bem, sabendo que o berrio e salas de recreao, em que
tinham sido criados, seriam usados novamente.
Assim, dali h alguns anos, teria um filho a quem ensinaria a cavalgar e
a atirar, e filhas que se tornariam to lindas quantos suas ancestrais.
Nunca tinha pensado nisso antes, mas, agora, sabia que a beleza estranha, 
frgil e quase etrea de Nathaly acrescentaria um novo brilho  beleza 
das mulheres e s feies marcantes e bem-feitas da famlia Otterburn.
Porm... essas coisas s aconteceriam se ela se tornasse sua esposa de 
verdade!
De repente, os sentimentos de Seldon comearam a aflorar como uma 
enchente.
Ele a queria! Desejaria abra-la com fora, senti-la estremecer contra 
seu peito, no de medo, mas de excitao. Queria tirar os grampos de seus 
cabelos e deix-los cair sobre a pele macia dos ombros. Em seguida, 
beij-la, mantendo seus lbios doces e inocentes presos aos dele.
Empurrou o copo para longe, como se a intensidade de seus sentimentos no 
precisasse de um estimulante.
Quando resolveu procurar Nathaly e tentar dissipar o medo que lhe 
despertara, ouviu passos na direo das cabines. Compreendeu que estava 
se retirando, e que no a veria mais naquela noite.
No dia seguinte, Seldon notou que havia novamente uma barreira entre
eles.
Procurou o tempo todo conversar tranquilamente sobre vrios assuntos, sem 
fazer nenhuma referncia ao que dissera durante o jantar da noite 
anterior.
99
No fim do dia, tinha a impresso de que a confiana voltara aos olhos de 
Nathaly e de que ela no parecia mais assustada.
Compreendendo o que sentia por ela, Seldon achava que, a cada movimento 
de suas mos, cada vez que virava a cabea, cada vez que o sol refletia 
em seus cabelos loiros, Nathaly lhe parecia mais bonita e encantadora do 
que nunca.
Este sentimento persistiu e cresceu conforme os dias foram passando, e o 
iate j atravessava o mar Jnico.
Num desses dias, em que as tardes estavam to quentes que era quase 
impossvel fazer outra coisa seno ficar repousando sob o toldo colocado 
no convs, Seldon admitiu que estava loucamente apaixonado.
Nunca esperara por isso, mas era impossvel negar que levantava todos os 
dias com uma tremenda emoo porque iria ver Nathaly. Que passava as 
noites agitado, revirando-se na cama porque estava sozinho e ela, na 
cabine ao lado, separada apenas por uma fina parede.
Era amor o que sentia pela esposa, e era um sentimento completo e 
extremamente diferente de qualquer outro que j nutrira na vida.
Era o amor que o fazia sentir as tmporas latejarem e os lbios arderem  de vontade de beijar Nathaly. Que o fazia sentir que no era apenas uma
mulher desejvel, mas que preenchia seus sentimentos de tal forma que
nada mais lhe importava.
Era impossvel pensar em qualquer outra coisa e Seldon no desejava 
apenas toc-la e abra-la. Tambm queria ouvir suas risadas alegres, 
melodiosas e quase infantis e a delicadeza de sua voz quando conversavam.
Seu ingls era quase clssico, e ela possua um vocabulrio muito mais 
extenso do que qualquer outra mulher que conhecera.
Adorava suas tiradas de humor e o modo como, s vezes, zombava dele e, em 
seguida, o fitava apreensiva, temendo que a interpretasse mal e ficasse
ofendido.
100
- Eu a amo! Meu Deus do cu... eu a amo! - disse Seldon para o sol e para
o mar, sentindo uma angstia indescritvel por estar ali sozinho, quando 
queria Nathaly a seu lado.
Estavam casados h trs semanas quando atravessaram o estreito de Messina 
e comearam a navegar na direo da Grcia.
- Que ilha visitaremos primeiro? - perguntou ela, logo depois que 
partiram de Messina, onde o capito tinha feito questo de aportar, pois 
queria fazer um pequeno reparo no iate.
Nathaly havia gostado de ver a Siclia, mas ele tinha certeza de que 
estava muito mais empolgada com a ideia de conhecer as ilhas gregas.
J havia conversado sobre os deuses que tinham ligao com cada ilha e 
ficaram declamando poemas de lorde Byron, at que Seldon fora obrigado a 
admitir que o conhecimento de Nathaly sobre a obra do poeta era muito 
maior do que o seu.
- Acho que a primeira ilha que encontraremos ser Corfu - disse Seldon.
- Kerkyra - corrigiu ela.
- Est sugerindo que a gente passe a falar em grego? Nesse caso, acho que 
ficarei em grande desvantagem.
- Voc aprendeu grego?
- H muito tempo.
- Ento tente lembrar o que sabe. Quero entender o que os gregos nos
disserem. Tive uma professora que me deu uma boa noo da lngua grega
moderna.
Enquanto conversavam, apareceu um camareiro, dizendo que o capito 
desejava falar com o duque.
- O que aconteceu? - perguntou, quando encontrou o capito na ponte de 
comando.
- Se me permite, sr. duque, gostaria de ancorar perto de terra firme 
antes de prosseguirmos viagem.
- Alguma coisa errada?
101
- A pea nova que colocamos em Messina no est bem ajustada como eu 
gostaria.  uma questo de apenas duas ou trs horas de trabalho, mas
prefiro no prosseguir enquanto a pea no estiver funcionando o melhor
possvel.
- Claro, entendo perfeitamente.
- Minha sugesto, sr. duque,  ancorarmos numa das pequenas baas ao 
longo da costa. Os homens podem comear a trabalhar assim que amanhecer e 
poderemos partir para Corfu por volta do meio-dia.
- Parece timo!
Quando ele contou sua conversa com o capito, Nathaly exclamou, 
encantada:
- Isso significa que colocaremos o p na Albnia, nem que seja por cinco 
minutos, e terei visitado mais um pas.
- Voc os est contando?
- Mas claro! Tenho que empatar com voc! J contei nada mais nada menos 
do que quinze pases que disse ter visitado, enquanto eu s estive em 
quatro, ou foram cinco?
- Pode colocar a Albnia na sua lista, mas no  um lugar muito 
fascinante, embora tenha montanhas bonitas e as flores devam estar 
abertas nesta poca do ano.
- No pense que vai conseguir me desanimar antes de chegar l! - reclamou 
ela, e os dois riram.
Na manh seguinte, o iate deitou ncora e, como sempre, Seldon ouviu 
Nathaly levantar muito cedo e pensou que devia fazer o mesmo.
Encontrou-a no convs e, como ela queria ir para terra firme o mais 
depressa possvel, tomaram o caf da manh mais cedo.
O ar estava fresco e o sol no muito quente quando foram levados  terra.
- Albnia! - exclamou triunfante. - Agora, est definitivamente na minha 
lista!
- Graas a Deus! - retrucou ele. - Assim, no precisaremos andar mais!
- Imagine! Quero subir at o topo daquele penhasco!
Ele notou que os marinheiros que os haviam trazido do iate esperavam suas 
instrues.
- Venham nos buscar daqui a uma hora e meia - o duque avisou.
- Sim, sr. duque.
Seldon virou-se e seguiu a esposa, que j estava subindo por um atalho 
fora da baa.
Uma subida pedregosa e cheia de curvas levava ao topo do penhasco, de 
onde se via, de um lado, o mar e, de outro, as montanhas, que se elevavam 
orgulhosamente para o cu.
Os declives eram todos repletos de rvores e suas copas verdes 
contrastavam com o azul intenso do cu.
Era uma paisagem muito bonita e, extasiada, Nathaly no cansava de 
comentar a beleza das vrias espcies de flores que desabrochavam em 
profuso nos gramados densos.
Seguiram um atalho na direo norte e logo estavam no meio das rvores.
Seldon desejava que ela visse alguns animais selvagens que habitavam as 
montanhas da Albnia. Porm, alm de vrias lebres e, de vez em quando, 
uma pequena cora, no viram sinal de camuras, nem mesmo de cabras 
montesas, caractersticas daquele pas.
Nathaly, no entanto, estava muito feliz e satisfeita com o que via.
- Que estupidez, a minha! - disse ela, de repente, parando de andar. - 
No tinha pensado nisso at agora, mas devamos ter trazido uma mquina 
fotogrfica.
- Tambm no pensei. Fiquei sabendo que lanaram um modelo novo no 
mercado, muito fcil de manejar. Assim, teramos timo material para 
guardar de lembrana da nossa lua-de-mel.
- O que quero  mostrar a papai onde estivemos - desconversou ela. - 
Deveria ter me lembrado disso!
- Podemos comprar uma quando chegarmos a Atenas
- consolou-a Seldon.
- Est falando srio?
- Podemos tentar.
- Imagine s como deve ser linda a vista do topo dessas montanhas!
- Voc no est sugerindo que a gente suba mesmo sem a mquina 
fotogrfica, no ?
- Quero subir um pouco mais. A, poderemos ver a paisagem magnfica 
estendida aos nossos ps. Vamos, por favor, anime-se!
- Est bem, mas no quero que se canse demais.
- No estou cansada. Alm disso, temos feito pouco exerccio nas ltimas 
semanas. S temos dado algumas voltas pelo convs! Precisamos caminhar!
-  verdade. Quando chegarmos s ilhas gregas, quero nadar todos os dias.
Nathaly deu um gritinho.
- Posso nadar com voc?
- Voc sabe nadar?
- Sempre nadei numa piscina que tnhamos em uma de nossas casas, 
portanto, no  possvel que eu afunde, se  isso o que voc quis dizer.
- Estou surpreso.
Em seguida, Seldon pensou que no era de se surpreender. Isso era muito 
natural em uma garota americana, ao contrrio das inglesas, que eram 
inibidas demais para se mostrarem em trajes de banho, mesmo que s para a 
famlia.
- Por favor, deixe-me nadar com voc quando chegarmos na Grcia - pediu 
ela.
- Vou esperar ansioso a hora de podermos nadar juntos. Nathaly sorriu com 
tanta felicidade, que ele teve que se
conter para no abra-la e dizer que faria tudo o que quisesse, contanto 
que ficasse to feliz quanto naquele momento. Depois de descansarem 
debaixo das rvores e apreciarem a paisagem, ele notou que j fazia mais 
de uma hora que tinham deixado o iate e achou melhor voltarem.
- O capito ficar pensando que aconteceu alguma coisa conosco.
- Aqui  to bonito e acolhedor - comentou ela. Creio que gostaria de 
construir uma casa aqui. Assim, poderamos escapar de tudo e de todos.
-  uma boa ideia, sem dvida, mas talvez, depois de algum tempo, voc 
comeasse a se aborrecer.
Ela fitou-o curiosamente durante alguns momentos.
- No se voc continuar me contando sobre as coisas que
fez e os lugares que visitou.
- Mas ainda quero fazer muitas coisas.
- Que coisas?
Ia comear a responder, quando ouviu um barulho vindo de trs das
rvores. Virou a cabea e, espantado, viu vrios homens mal-encarados se
aproximando.
Tinham cabelos longos, bigodes, e carregavam mosquetes compridos e 
antigos.
Seldon levantou-se num salto e Nathaly tambm. Quando os homens se 
aproximaram mais ainda, ela segurou no brao do marido, tremendo um 
pouco.
Ele percebeu que devia estar com medo, o que era absolutamente 
compreensvel, pois os visitantes tinham faces e espadas enfiados nos 
cintos largos e, a julgar pela aparncia e pelo modo de se aproximarem, 
deviam ser bandidos.
Alm disso, sabia que os albaneses estavam sempre lutando contra algum 
bando ou atacando os vizinhos, embora no fossem, necessariamente, 
bandidos ou criminosos.
Antes que conseguisse fazer um movimento sequer, descobriu que os homens, 
um grupo de mais ou menos doze, j os tinha cercado.
Estava considerando se ele e Nathaly tinham alguma chance de correr para 
 meio das rvores, quando um homem, o mais alto e, claramente, o que 
tinha mais autoridade em todo o grupo, disse, num ingls quase 
incompreensvel:
- Voc... dono do... barco grande?
105
O homem apontou na direo do iate e Seldon concordou com a cabea.
- Sim.
Um sorriso largo surgiu por baixo do bigode longo e o homem disse:
- timo! Vocs... vm com a gente!
- Por qu? - perguntou Seldon. - Ns j amos voltar para o iate.
- Vocs... vm com a... gente! - repetiu o homem firmemente.
No havia a menor dvida de que estava falando srio. Os outros homens se
aproximaram mais de Seldon e um deles empurrou-o para a frente.
Nathaly deu um gritinho e segurou a sua mo.
- O que eles querem? Para onde vo nos levar? - perguntou ela.
- No sei, mas, infelizmente, acho que temos que fazer o que eles querem.
Ele tinha a sensao desconfortvel de que estavam sendo sequestrados e 
que os homens iriam pedir um resgate de alto valor.
De repente, para sua surpresa, Nathaly, ainda segurando sua mo com 
fora, comeou a falar em grego com os homens.
- O que vocs querem? Para onde esto nos levando?
- perguntou com voz clara.
Os homens ficaram parados por um momento, ouvindo o que ela dizia. Em 
seguida, o lder respondeu, numa mistura de albans e grego, ainda mais 
difcil de entender do que seu pssimo ingls.
Para Seldon, foi completamente incompreensvel e, s depois de comearem 
novamente a seguir um atalho entre as rvores, na direo oposta ao iate, 
Nathaly explicou:
- No consegui entender direito, mas acho que ele nos considera seus
prisioneiros e vai nos manter assim enquanto tenta entrar em contato com
algum... no consegui entender quem.
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- Pergunte quanto dinheiro ele quer para nos libertar. Ela fez a pergunta
e, desta vez, no pararam de caminhar.
O lder, que estava na frente, apenas meneou a cabea categoricamente, 
deixando muito claro que sua nica resposta era "no! ".
- No  dinheiro que eles querem - comentou Nathaly.
- O que eles querem, ento?
Ela perguntou novamente e, desta vez, a resposta foi ainda mais longa do 
que a primeira.
- Pelo que entendi, nos tomaram como refns porque dois de seus "irmos" 
vo ser enforcados em Atenas.
- Atenas! - exclamou Seldon. - Quer dizer que eles vo nos manter 
prisioneiros at sermos trocados por dois criminosos condenados  forca?
- Tenho certeza de que foi isso o que ele disse.
- Diga a ele... - comeou Seldon, parando em seguida. Tentou, 
desesperadamente, pensar no que podiam dizer
para amea-los. Compreendeu, tarde demais, que tinha sido um tolo de 
desembarcar num pas estranho sem providenciar que Nathaly e ele 
estivessem bem protegidos.
Lembrava-se agora de ouvir comentrios sobre como os bandidos da Albnia 
eram poderosos e cruis quando lhes convinha.
Aqueles homens podiam ser os Pallikares, famosos pelos inmeros problemas 
que causaram a Otto I, na poca em que era rei da Grcia.
Independente do nome que tinham, era perigoso estarem na posio de 
prisioneiros.
Se estivesse sozinho, Seldon os teria enfrentado e tentado fugir, mas, 
com Nathaly, a nica coisa que tinham a fazer era obedecer suas ordens.
Caminharam durante mais ou menos meia hora, at que as rvores se abriram 
numa clareira e chegaram ao que parecia ser um vilarejo em runas. 
Construdo ao p de uma montanha,
107
parecia ter sido abandonado, porque um deslizamento de terra havia
destrudo metade dele e deixado o resto das casas em condies precrias.
Seldon pensou se algum poderia viver sob o temor constante de uma 
avalanche, talvez at causada por uma chuva mais forte.
Continuaram caminhando sobre pedras, que machucavam os ps de Nathaly. De 
repente, os bandidos pararam na frente de um edifcio alto, 
semidestrudo.
Uma porta pesada foi aberta e, como hesitou, Seldon foi empurrado para 
dentro. Nathaly ainda segurava firmemente a mo dele, quando atravessaram 
outra porta e entraram no que parecia uma cela longa, alta e sem janelas.
O lder do bando resolveu fazer um longo discurso. De vez em quando, 
olhava para ela, sentindo que talvez o entendesse.
Por duas vezes Nathaly o interrompeu e fez perguntas, mas ele prosseguiu 
impaciente no que queria dizer e, quando terminou, dirigiu-se para Seldon 
em ingls:
- Vocs ficam... se no soltarem irmos... vocs morrem! Morrem!
Saiu em seguida, batendo a pesada porta de ferro. Alguns minutos depois, 
ouviram a porta de fora sendo fechada. Houve um silncio.
Nathaly fitava, apavorada, a porta trancada e Seldon tentou falar com voz 
clara:
- Conte o que ele disse.
Ela respirou fundo e comeou a dizer, com voz entrecortada:
- Acho que ele disse que... os dois homens foram levados a Atenas para 
serem julgados, e sero... enforcados pelos seus crimes. Eles vo tentar 
contato com as autoridades para nos trocar por eles. Se as autoridades 
no permitirem a troca ns morreremos como os dois homens vo... morrer.
Sua voz tremia tanto que ela quase no conseguiu pronunciar as ltimas 
palavras.
- Tente se acalmar, Nathaly.  claro que eles levaro
108
algum tempo para chegar a Atenas e convencer as autoridades de que nos
tm como refns. Assim, temos que tentar fugir.
- Como... como faremos... isso?
Ela olhou  sua volta, completamente desesperada, e Seldon pensou que era
uma boa pergunta.
- Imagino que aqui era a velha priso do vilarejo disse ele.
Era um local bem opressivo. As paredes tinham sido totalmente arranhadas 
pelos ltimos prisioneiros e, nos lugares em que o cimento tinha cado, 
podiam se ver os tijolos midos.
Olhou para o telhado, que, com certeza, no impedia a entrada de chuva, e
viu no alto, fora do alcance, uma pequena janela com grade de proteo.
Havia uma abertura numa das paredes e observou que deveria ter sido um 
lavatrio para os prisioneiros. Entretanto, agora, s havia uma pia suja 
e um ralo no cho, coberto de musgo e fungos.
Aquele espao no tinha luz e, quando voltou para a cela, notou que havia 
dois bancos de madeira encostados numa parede e que, embora no tivessem 
colches, deviam ter sido usados como camas.
Nathaly devia estar observando-o caminhar pela cela, pois pediu, quase em 
tom de splica:
- Como poderemos... ficar aqui? Por favor... encontre uma sada!
Se no estivesse to preocupado, ficaria satisfeito por ela lhe pedir 
ajuda.
O nico problema era que ele no fazia a menor ideia de como poderia 
fugir dali.
Cuidadosamente, Seldon sentou-se na ponta de um dos bancos, temendo que 
casse aos pedaos, mas descobriu que era muito seguro, feito de um 
pedao inteiro de madeira grossa e pregado firmemente a trs pernas 
compactas.
Era to firme que ficara intacto mesmo com a devastao
do vilarejo, quando muitas outras coisas, inclusive casas, tinham se
transformado em runas. Ele estendeu a mo para Nathaly.
- Sente-se um pouco enquanto eu penso. Faz muitas horas que samos do 
iate e sei que o capito deve estar preocupado por no termos voltado.
- Mas como ele poder nos encontrar?
Seldon no achava isso impossvel, porm sabia que, se o capito e os 
marinheiros tentassem libert-los, poderiam tambm ser dominados pelos 
bandidos, que tinham a vantagem de conhecer bem aquela regio.
Ficou sentado por algum tempo, pensando.
- Quando nos aproximamos, voc deve ter visto como este lugar foi 
construdo - disse ele. - Existe um declive muito ngrime de um lado, e 
imagino que no devem vigi-lo com tanto cuidado.  por isso que temos de 
descobrir um meio de fugir, justamente por aquele lado.
- Como? Como?
-  o que preciso descobrir. Acho melhor voc sentar o mais 
confortavelmente possvel e colocar os ps para cima. Pode ser que 
tenhamos de enfrentar outra caminhada desagradvel durante a noite.
Ele sabia que no ia ser to fcil. Na verdade, essa possibilidade era 
muito remota, principalmente porque precisava proteger Nathaly dos homens 
que, sem dvida alguma, os tratariam com crueldade, caso a tentativa de 
fuga fracassasse.
Pensou, entretanto, que, se conseguira escapar de algumas situaes 
difceis na fronteira da ndia, no seria impossvel fugir de alguns 
bandidos albaneses que no deviam ter muita prtica em manter refns 
prisioneiros naquela parte isolada do pas.
com os olhos arregalados, Nathaly no parava de observlo. Viu-o ficar 
olhando a janela perto do teto e depois levantar-se e ir at o lavatrio 
escuro.
Do lugar em que estava sentada, viu-o abaixar-se e examinar o cho e, em
seguida, tocar a parede embaixo da pia.
Seldon voltou sorrindo.
- que... voc descobriu? - perguntou ela.
- Posso estar enganado e alimentando suas esperanas em vo, mas a parede 
do lavatrio no parece ser to grossa quanto as daqui. Alm disso, como 
sempre ficou molhada por causa da pia, imagino que seja fcil derrub-la.
Ela deu um gritinho de satisfao.
- Porm, teremos que tomar muito cuidado para que no descubram o que 
estamos tentando fazer; caso contrrio, eles, na certa, nos amarraro.
Ela estendeu-lhe as mos, com medo.
- Por favor no os deixe fazer isso! Eu morreria de... medo se 
acontecesse alguma coisa com... voc!
- Quando eles voltarem, devemos tentar mostrar resignao. E, Nathaly,
preciso lhe dizer que sinto muito.
- Por qu?
- Por ter sido to convencido e achar que poderia cuidar de voc sem 
guarda-costas.
Ela fitou-o por um momento, como se no acreditasse que ele falava srio.
- Voc no percebeu que eles no esto nem um pouco interessados em mim 
ou no meu dinheiro? Voc  que  importante porque  dono do "barco 
grande"! Quando eu lhes ofereci um milho de dlares em troca da nossa 
liberdade, disseram que no queriam dinheiro algum. - Nathaly riu. - 
Mame ficaria horrorizada se soubesse!  a primeira vez que nossos
dlares no valem absolutamente nada e no podem comprar algo que
desejamos!  realmente muito engraado!
Ela parecia estar achando a situao to divertida, que Seldon tambm 
riu.
- Voc tem razo - concordou ele. -  uma lio bastante salutar e temos
que tirar dela as concluses mais bvias.
- E quais so?
- Temos que confiar to-somente em ns mesmos e nos nossos crebros - 
disse ele, com tom de voz calmo e carinhoso.
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- Mais do que qualquer outra coisa, Nathaly; isso significa que
teremos de fazer algo juntos. E, nesta situao, isto  um ponto 
positivo.
Ela riu, como se achasse engraado.
Em seguida, seus olhares se encontraram e foi difcil para os dois 
desvi-los para outra direo.

CAPTULO VII

Nathaly ficou com o rosto colado na porta, prestando ateno em qualquer
rudo. Mas a nica coisa que conseguia ouvir era Seldon no lavatrio,
chutando a parede. ; Ele estava deitado de costas no cho, sem casaco, 
pois,
para abafar o barulho, o colocara na parede mida, onde
batia os dois ps com todas as suas foras.
Como ele lhe explicara o que pretendia fazer, Nathaly
sabia muito bem que, se fossem ouvidos, no existiria mais
nenhuma chance de fuga, pois, com toda a certeza, seriam
amarrados.
com o ouvido colado na porta, ela rezava e, talvez pela intensidade de 
suas preces, sentia que estava com uma sensibilidade maior para qualquer 
rudo.
Embora Seldon tentasse demonstrar calma e segurana ela percebia que, no 
fundo, estava muito ansioso e o temor que isso lhe provocava, s vezes, 
ameaava domin-la completamente.
Como queria que ele a considerasse corajosa e controlada, Nathaly 
conseguiu disfarar muito bem todo o medo que sentia.
De repente, ficou sobressaltada ao ouvir um rudo e percebeu que Seldon 
tinha conseguido demolir parte da parede.
113
O barulho devia ser dos tijolos rolando pelo desfiladeiro ao lado da
montanha.
Ela prendeu a respirao.
Se os bandidos tambm tivessem ouvido, entrariam na cela correndo.
Mais ou menos duas horas antes, eles tinham levado po amanhecido, queijo
e uma jarra de vinho para os prisioneiros, mas, entre os homens que
entraram na cela, o lder no estava e, quando Nathaly lhes dirigira a
palavra, no havia recebido resposta alguma.
Em lugar de responderem, eles a fitaram curiosamente, de maneira bastante
insolente, e ela se encolhera junto a Seldon, tremendo.
Alm disso, fizeram algum comentrio rude e impertinente, que, 
felizmente, ela no entendera, e saram, batendo e trancando a porta.
Ficou esperando, mas no houve sinal dos bandidos. Depois de alguns 
minutos, percebeu que Seldon estava ao seu lado.
Ela estendeu as mos na escurido, at conseguir toc-lo.
- Agora escute com ateno... - disse ele num tom de voz grave e srio.
Depois de estarem a salvo, Nathaly no suportava lembrar o momento 
terrvel em que, seguindo as instrues de Seldon, tinha passado pelo 
buraco da parede do lavatrio e encontrara um imenso precipcio 
exatamente  sua frente.
- No olhe para baixo! - ordenou ele. - Fique em p devagar, de frente 
para a parede da priso e segure-a com as duas mos.
Ele lhe deu instrues claras e precisas sobre como devia se mover 
lentamente sobre a orla do rochedo.
Antes de sarem da cela, ele lhe dissera que tirasse os sapatos, assim, 
seus ps teriam mais condies de se agarrarem nas rochas.
114
Embora tivessem demorado apenas quatro ou cinco minutos, a impresso de 
Nathaly era de ter passado horas seguindo Seldon, passo a passo, para 
contornar a parede da priso.
O rochedo em que estavam caminhando ficou mais largo, mas ainda havia o 
terrvel precipcio ao seu lado.
- No pare! - ordenou ele, num sussurro. - No olhe para baixo. Fique o 
mais perto possvel da parede. Agora falta pouco.
Ela obedecia cegamente, mas tinha os lbios secos e sentia o corao 
disparado, como se fosse explodir a qualquer momento.
Embora ele tivesse dito para no olhar para baixo, Nathaly viu que ainda 
teriam de atravessar uma fenda causada pelo deslizamento de terra, antes 
de chegarem  segurana do outro lado, junto s rvores.
Em seguida, ele pegou-a e colocou-a gentilmente ao seu lado.
- Vou carreg-la sobre meu ombro - disse ele, to baixo que ela quase no 
conseguiu ouvir. - No ser confortvel, mas  o jeito mais seguro. 
Confie em mim!
Ela queria responder, mas foi impossvel. Seldon pegou-a e colocou-a
sobre o ombro, como um fardo, e comeou a atravessar a fenda, tateando 
com uma s mo.
Durante o terrvel trajeto, ela abriu os olhos apenas uma vez e, quando 
viu o principcio, prendeu o grito de terror que lhe veio  garganta.
Pensou que Seldon cairia e que os dois morreriam nas profundezas do 
precipcio, mas ele comeou a subir e, quando ousou abrir os olhos
novamente, j estavam sob as sombra das rvores.
Ele colocou-a no cho gentilmente. Nathaly no conseguiu fazer nada, alm 
de recostar a cabea sobre seu ombro e respirar fundo.
- Temos que sair daqui o mais depressa possvel! disse ele. - Pode ser 
que o sangue lhe suba  cabea, mas
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vou carreg-la do mesmo jeito, at chegarmos a um lugar em que no seja
doloroso andar sem sapatos.
Ele colocou-a sobre o ombro novamente e, segurando-a firmemente com o 
brao esquerdo, comeou a correr.
Ela no imaginava que Seldon pudesse correr to depressa ou que fosse to 
forte a ponto de seu peso fazer pouca diferena na sua velocidade.
Ia se batendo de um lado para outro, mas o desconforto no era nada em 
comparao ao alvio de estarem livres da priso. Alm disso, se tivessem 
sorte, estariam em segurana no iate, antes que os bandidos se dessem 
conta do que tinha acontecido.
Ele continuava a correr, s vezes tropeando, s vezes escorregando nas 
pedras mais lisas, mas sempre carregando-a com segurana.
De repente, sem que esperasse, ele parou e colocou-a no cho.
- O que... aconteceu?
Nathaly mal conseguia falar e sentia-se um pouco tonta. Seu maior medo, 
porm, era de que houvesse outro perigo, novo e inesperado.
- Voc est bem? - perguntou ele. - O jeito como estou carregando voc 
deve ser horrvel.
- Eu estou... bem - disse, sem flego. - Por favor, vamos continuar, 
seno eles viro atrs de ns.
Seldon olhou para trs e, sob o luar, agora era possvel ver o teto da 
priso sobre as copas das rvores.
Parecia estar muito longe, mas a distncia entre eles e o iate tambm era 
considervel.
- Por favor... vamos depressa - pediu ela. - Posso correr agora.
- H muitas pedras no cho - replicou ele, pegando-a novamente, mas agora 
contra o peito.
Nathaly queria protestar, dizer que estava bem e que podia
116
correr sozinha, mas a proximidade de Seldon e o fato de estar com o rosto 
encostado no tecido fino de sua camisa, sentindo o calor de seu corpo, 
causou-lhe uma sensao muito estranha, que nunca tinha sentido antes.
Segurando-a com firmeza, ele comeou a correr de novo e ela sabia que 
estava segura e prxima dele. Embora no conseguisse entender, seu medo 
tinha desaparecido e estava feliz. To feliz que passou o brao esquerdo 
em volta do pescoo do marido.
Como se pensasse que estava com medo, ele lhe disse, no disfarando o 
tom de triunfo da voz:
- No se preocupe, ns vencemos. Eles no nos apanharo agora.
Ainda enquanto falava, ouviram vozes de homens gritando, a distncia, e, 
percebendo que tinha se vangloriado muito cedo, acelerou o passo e 
Nathaly grudou no seu pescoo, presa de sbito terror.
No podiam perder agora, no ltimo momento! No podiam ser recapturados 
depois daquela fuga terrvel e perigosa!
Dominada pelo pnico, ela achou que as vozes dos homens estavam ficando 
mais altas. Em seguida, ouviu um tiro, seguido de vrios outros, que 
ecoaram no silncio da noite.
Ouviu Seldon soltar uma exclamao e, olhando para a frente, viu a luz de 
duas lanternas. Quando se aproximaram mais, reconheceram os marinheiros 
do iate.
- Estvamos to preocupados, sr. duque. Pensvamos que talvez tivessem 
sofrido um acidente.
- Pior do que isso, mas leve-nos de volta para o iate o mais depressa 
possvel - replicou ele. - No temos tempo a perder.
Um marinheiro se adiantou, iluminando o atalho para a praia e todos o 
seguiram.
Um bote os esperava na baa e Seldon colocou Nathaly dentro antes de 
ajudar os marinheiros a empurr-lo para a gua.
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As luzes do iate eram a viso mais reconfortante que j tinham tido na 
vida, mas, quando os marinheiros comearam a remar, ouviram gritos vindos 
do topo dos penhascos!
Ela olhou para trs e soltou uma exclamao de puro terror ao ver as 
silhuetas dos bandidos contra o cu estrelado.
- Remem depressa! - ordenou Seldon. - Pode ser que atirem em ns!
J estavam mais perto do iate quando um tiro foi desferido em sua 
direo. Os marinheiros contornaram a embarcao e, no minuto seguinte, 
estavam fora de viso.
Nathaly foi ajudada a subir pela escada de corda, lanada do convs.
Ficou parada, indecisa, tremendo de medo, at Seldon subir. Ele pegou-a 
no colo, dizendo:
- Zarpe imediatamente, capito Briggs! Existe alguma arma a bordo?
- Temos vrias armas de esporte, sr. duque.
- Pegue-as!
Ele carregou-a at o salo e colocou-a no sof mais prximo. Nathaly 
tentou impedi-lo de se afastar, estendendo as mos e gritando:
- No... no... no me deixe! Eles podem...
Suas palavras no surtiram efeito algum pois Seldon j havia sado do 
salo, e ela ouviu-o novamente pedindo uma arma e mandando os marinheiros 
ocuparem posies estratgicas no convs.
Totalmente invadida pelo terror, pensou que os bandidos poderiam 
conseguir alvej-lo antes que o iate partisse.
com as luzes das vigias e as lanternas acesas no convs, Seidon seria um 
alvo fcil, e se fosse morto...
O simples fato de pensar nisso, fez Nathaly gritar. Em seguida, ouviu 
vrios tiros vindos da praia que, imediatamente foram retribudos do 
iate.
- Ele ser morto... sei que ele ser morto! - murmurou, demasiadamente, 
em seguida.
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Tinha a sensao de que passara um longo tempo antes que conseguisse 
recobrar plenamente a conscincia. Mas, agora, no havia mais barulho de
tiros, apenas o ronco estvel dos motores.
Estavam partindo... partindo para longe dos bandidos e Seldon estava bem
e sem ferimento algum, pelo menos era o que Jarvis tinha lhe garantido.
Jarvis  que encontrou-a inconsciente e, como ela percebeu mais tarde, 
ele a carregara para a cabine, a reanimara com conhaque e a ajudara a 
tirar a roupa para se deitar.
Estava assustada e exausta demais por tudo o que tinha passado. S quando 
ouviu a voz de Seldon no corredor, perguntou, ansiosa:
- O sr. duque est... bem?
- Perfeitamente, sra. duquesa. Vou ajud-lo agora, pois ele quer se
lavar. Depois, direi que a senhora quer v-lo.
O valete no esperou resposta e saiu da cabine.
Recostada nos travesseiros, Nathaly pensava que a voz de Seldon na cabine 
ao lado era o som mais reconfortante que j tinha ouvido em toda a sua 
vida.
Ele estava vivo e sem ferimentos! Agora, no precisava mais ter medo e 
poderiam descansar sossegados.
- Ele est vivo!
De repente, foi como se ele a carregasse no colo novamente e quase podia 
sentir as batidas de seu corao e o calor de seu corpo.
Tinha gostado da fora de seus braos e da sensao de segurana que ele 
lhe transmitia, mesmo durante aquela situao terrvel.
De repente, ao ouvi-lo dar uma risada na cabine ao lado, percebeu que o 
amava.
Era to espantoso, to inesperado que, por um momento, Nathaly enrijeceu 
o corpo, tentando se convencer de que no era verdade.
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Em seguida, compreendeu que era aquilo que tinha sentido em Nova York,
quando danara com o cavalheiro ingls e desejara v-lo de novo. S que,
agora, o sentimento era to intenso que invadia cada centmetro do seu
corpo...
"Eu... o... amo!", pensou, sentindo que no podia ser verdade, que devia
estar sonhando.
Como tinha acontecido? Como podia amar um homem que tanto odiara e
desprezara?
No momento seguinte, admitiu que seu amor era total e absolutamente
compreensvel.
Seldon no era apenas o homem mais bonito e atraente que j conhecera,
mas, tambm, o mais gentil, seguro e protetor.
Ela era inteligente o bastante para perceber que nenhum outro homem, nem
mesmo seu pai, seria capaz de conseguir faz-la atravessar, sem gritar
histericamente de medo, uma borda de penhasco ao lado de um precipcio,
onde um nico deslize significaria morte certa.
Como se sentia completamente segura com Seldon e, como percebia agora que
o amava, por nenhum momento chegou a pensar que no seria bem-sucedida a
fuga que pretendia.
Alm de tudo, depois de conseguirem ultrapassar a parte mais difcil e
perigosa do trajeto, ele a carregara no colo, lutando contra suas
prprias foras e resistncia, para poup-la de mais sofrimento!
"Ele ... maravilhoso! Maravilhoso!", pensou, sentindo o corao
estranhamente descompassado.
A porta da cabine foi aberta, mas quando levantou a cabea, ansiosa, no
viu Seldon e, sim, Jarvis.
- com licena, sra. duquesa - disse o criado. - O cozinheiro preparou uma
sopa deliciosa e o sr. duque pergunta se pode vir toma-la aqui, em sua
companhia.
- Sim... claro!
Jarvis saiu e voltou alguns minutos depois, carregando uma
120
bandeja, onde havia terrinas de sopa, uma tigela e uma garrafa de
champanhe num balde de gelo.
Jarvis colocou-a sobre uma mesinha ao lado da cama. No estava com muita 
fome, pois Seldon a obrigara a comer um pouco da comida que os bandidos 
lhes serviram, mas Nathaly pensou em prolongar bastante a refeio, assim 
ele ficaria mais tempo em sua companhia.
- O sr. duque est tomando banho - avisou Jarvis, saindo da cabine.
Quando a porta foi aberta novamente, Seldon entrou.
Usava um roupo longo, de cetim azul-escuro, e tinha um leno amarrado no 
pescoo, o que lhe dava um ar sofisticado, e ainda estava com os cabelos 
molhados.
Ela ficou to satisfeita ao v-lo que nem pensou em sua prpria 
aparncia.
No percebeu que, com os cabelos loiros esparramados sobre os 
travesseiros cor-de-rosa, estava encantadora e seus grandes olhos 
pareciam mais bonitos do que nunca.
- Est se sentindo bem agora? - perguntou Seldon, aproximando-se da cama.
- Sim... obrigada.
- Jarvis me disse que voc desmaiou.
- Foi... tolice minha, mas eu... estava com tanto medo de que...
atirassem em voc!
Houve um breve silncio.
- Voc estava pensando em mim? - perguntou ele, em seguida.
- Sim, claro! Eu tinha certeza de que os bandidos iam querer mat-lo por 
ser... to inteligente e conseguir... fugir deles.
- Bem, eles falharam! - disse Seldon, revelando muita satisfao, 
enquanto servia a sopa para ambos. - E, se no matamos, pelo menos 
ferimos dois deles!
Nathaly s aceitou a sopa porque foi ele quem lhe ofereceu,
121
mas, depois de alguns goles, percebeu que no estava mesmo com fome
e colocou a terrina sobre a bandeja na mesinha.
Ficou envergonhada ao notar que Seldon tomara a sua sopa com os olhos 
fixos nela. Ao mesmo tempo, inexplicavelmente dominada por uma felicidade 
intensa, tinha a sensao de que a cabine estava toda iluminada pelos 
raios do sol.
- Como poderamos ter imaginado que acabaramos envolvidos numa situao 
to terrvel? - disse ele, quando terminou a refeio. - Porm, samos 
sos e salvos e acho que devamos fazer um brinde.
Jarvis entrou na cabine e levou a bandeja com a tigela e as terrinas,
deixando apenas o champanhe.
Seldon encheu as duas taas, ofereceu uma para Nathaly e levantou a 
outra.
Seus olhares se encontraram e ele disse gentilmente:
- Para a mulher mais corajosa que j conheci em toda a minha vida!
Ela sentiu o sangue subir ao rosto, mas conseguiu responder, um pouco 
hesitante:
- Para o homem mais corajoso do mundo que... conseguiu nos salvar!
Ela tomou um gole do champanhe e, sentindo o corao disparar, notou que 
Seldon tinha se sentado na beira da cama,  sua frente.
- Quero lhe contar como voc foi maravilhosa, Nathaly. Nunca pensei que 
uma mulher, naquelas circunstncias, no ficasse gritando, ou, pelo 
menos, chorando e lamentando nossa sorte.
Como nunca o ouvira falar daquele jeito e naquele tom de voz, ela no 
ficou apenas envergonhada, mas tambm sentiu os olhos se enchendo de 
lgrimas.
Era to bom que Seldon pensasse assim, quando ele  que fizera tudo para 
fugirem, at carregara-a no colo! Se no
no
fosse to forte, teriam sido recapturados facilmente e estariam em 
situao muito diferente.
- Voc  que foi maravilhoso! - disse ela, num impulso. Ele colocou sua 
taa na mesinha.
-  to difcil encontrar as palavras certas para dizer o que estou 
sentindo! Tenho um medo terrvel de assust-la, Nathaly!
- Depois do que passamos hoje, acho que nada mais pode me assustar... se 
voc estiver perto de mim.
- Espero que seja verdade, mas no estava pensando no seu medo dos 
bandidos e, sim, de mim! - disse ele, ansioso.
Viu o rubor que a deixava ainda mais encantadora e percebeu que, ao ouvir 
suas palavras, tinha sentido um leve tremor, que no era de medo.
Em seguida, disse suavemente:
- Se voc no fosse uma herdeira e j no fosse casada, eu pediria para
ser minha esposa, nem que tivesse que fazer isso de joelhos!
Seldon sentia-se como um jogador, que estava apostando tudo o que
possua, rezando para que a cartada certa viesse.
Depois do que lhe pareceu ser uma pausa longa demais, Nathaly respondeu:
- Se voc no fosse um duque e no... tivesse uma esposa muito 
ciumenta... eu aceitaria!
Ele prendeu a respirao.
- Minha esposa  ciumenta?
- Muito... muito ciumenta! Ela nunca vai deix-lo... se afastar.
Ele se aproximou.
- Minha querida, meu doce! Est falando srio?
Ela no conseguiu responder. As palavras pareciam presas em sua garganta.
- Pelo amor de Deus, Nathaly, no brinque comigo! Eu a quero to 
desesperadamente, que no consigo pensar com
122
clareza. No suportaria que se afastasse de mim por medo. Farei tudo o
que quiser, mas, pelo amor de Deus, confie e acredite em mim, por favor!
Nathaly levantou a cabea e viu que o rosto dele estava pertinho do seu.
- Eu confio em... voc - murmurou ela. - E... e... eu amo voc!
Seldon suspirou e segurou as mos dela impulsivamente.
- Est falando srio, Nathaly? Est falando srio mesmo? Oh, meu amor, 
quando estvamos correndo, eu tinha a estranha sensao de que tambm 
estvamos correndo em busca da nossa felicidade! Ser possvel que eu 
estava certo?
- Tambm senti a mesma coisa. Eu sentia o seu corao batendo e queria 
que voc me segurasse com mais fora e... ainda mais perto.
-  o que vou fazer agora!
Seldon abraou-a e, devagar, muito devagar, como se ainda tivesse medo de 
assust-la, procurou seus lbios. Sentiu que, exatamente como imaginava, 
eram doces, suaves e inocentes e lhe deram um prazer que nunca sentira 
antes.
Para Nathaly, aquele beijo representava tudo o que sempre desejou na vida 
e que pensou jamais encontrar.
Era o amor, que sempre lhe disseram estar fora do seu alcance. Um amor 
que no tinha nada a ver com seu dinheiro, apenas com ela mesma.
Enquanto o beijava, sentia estar oferecendo seu corao e sua alma a 
Seldon e tinha certeza de que ele pensava o mesmo. Era como se formassem 
uma s pessoa!
Quando os lbios dele se tornaram mais apaixonados e possessivos, era 
como se estivesse sendo transportada para o topo da montanha mais alta da 
Terra, onde o mundo se confundia com o cu e as estrelas.
Queria abra-lo com mais fora, colar seu corpo ao dele e, finalmente, 
quando pararam de se beijar, disse, com voz vibrante de felicidade:
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- Eu... amo... voc! Eu amo voc!
- Eu tambm amo voc, minha querida! Amo voc porque  a pessoa mais 
encantadora que j conheci em toda a minha vida. Acho que ns 
pertencamos um ao outro desde o comeo dos tempos.
- Tambm... acredito nisso e no importa quem ns somos e o que 
possumos, no ?
Seldon percebeu o quanto aquela pergunta era importante para a 
tranquilidade e segurana de Nathaly.
- Eu a amaria exatamente como agora, mesmo que voc tivesse nascido numa 
choupana e no tivesse nada alm desses lbios fascinantes e adorveis!
Ele beijou-a novamente e Nathaly teve a sensao de ir ainda mais alto do 
que o topo da montanha. Estavam no prprio cu, no meio das estrelas, 
envolvidos em suave luminosidade.
- Oh, meu Deus, como eu amo voc! - exclamou ela, quando conseguiu falar 
novamente. - Gostaria tanto que no fosse um duque, assim poderamos 
viver em algum pequeno chal... nas montanhas. Eu cuidaria de voc e 
mostraria que, para mim, nada mais importa, a no ser o fato de voc ser 
to gentil e corajoso.
- Acha mesmo que sou corajoso? - Seldon encarou-a e viu todo o amor que 
ela sentia estampado em seus olhos.
- Voc  a mulher mais bonita que j vi! Alm de ser a mais inteligente e 
a mais corajosa. Agora, porm, ter que ser mais uma coisa, alm de tudo 
isso.
- O... qu?
- A mais amorosa! Quero seu amor, Nathaly! Quero desesperadamente! No 
poderia viver sem voc!
- Ele  seu... todo seu - disse ela, apaixonada. Quero ser sua! Quero 
ficar com voc para sempre e me sentir to segura como quando me carregou 
por aquele penhasco horrvel! Voc foi maravilhoso!
- No futuro, vou proteg-la muito melhor do que at agora.
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- Talvez tenha sido bom ter acontecido tudo isso porque me fez perceber o
quanto amo voc. Quando pensei que os bandidos poderiam atirar em voc,
senti que, se morresse, minha vida tambm chegaria ao fim - disse ela, 
bastante emocionada.
- Meu amor, minha querida! Fui um descuidado e tolo em no pensar que, em 
lugares como esse, sempre h bandidos de algum tipo, querendo usar as 
pessoas para atingirem seus prprios fins. Eu sinto muito! Talvez no 
precisssemos viver essa experincia horrvel para encontrar a 
felicidade.
- No tenho medo de nada, se voc estiver ao meu lado.
- Nunca mais deixarei que sinta medo de alguma coisa. Prometo.
- S ficarei com medo se voc ficar muito bravo comigo.
- Como eu poderia ficar bravo com uma pessoa to doce e maravilhosa?
- Pode ser que outra exploso lance dez mil rosas vermelhas no ar...
Seldon riu.
- Se acontecer, farei voc pagar uma a uma, com dez mil beijos!
- Eu bem que... gostaria!
Nathaly passou os braos em volta do pescoo dele, para que se 
aproximasse mais, mas, em vez de Seldon beijar seus lbios, como 
esperava, beijou seu pescoo e ela estremeceu, com uma sensao nova, que 
nunca experimentara antes.
Seldon beijou-a at Nathaly sentir a respirao entrecortada, as 
plpebras pesadas e o corpo inteiro estremecer sob o lenol.
No entendia o que estava sentindo, mas desejava que ele continuasse a 
beij-la daquele jeito estranho e excitante, to completamente diferente 
de tudo o que imaginava ser capaz de sentir.
- Eu amo voc, Nathaly! - disse Seldon, com voz rouca.
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- Quero voc, querida, quero voc como minha esposa! Mas no farei
nada que voc no queira.
- Eu quero ficar... perto de voc - murmurou ela, ainda com a respirao 
entrecortada. - Quero ficar muito, muito mais perto! Por favor, querido 
Seldon, me faa sua esposa... sua verdadeira esposa!
Ele soltou uma exclamao de triunfo. Em seguida, apagou as velas, 
deixando s um candelabro aceso, e se deitou na cama ao seu lado, depois 
de tirar o roupo azul.
Abraou-a.
- Sei que  tarde demais para dizer isso, meu amor, mas eu tinha uma 
promessa comigo mesmo de que no a tocaria at que voc pedisse.
Nathaly deu uma risada de pura felicidade, que afastou completamente sua 
timidez. Aproximando-se mais de Seldon, murmurou sedutoramente:
- Toque em mim... toque em mim, Seldon... s que...
- S que...
- Voc faz com que eu me sinta to estranha... to excitada.
-  isso o que quero que voc sinta - replicou Seldon, satisfeito. - Se 
eu a excito, minha esposinha linda, voc me excita a ponto de me deixar 
quase louco. - A voz de Seldon estava rouca de paixo, mas ele
acrescentou: - Eu serei muito gentil e delicado, Nathaly. No vou deix-
la assustada ou com medo, fique tranquila.
Ele puxou as alas de sua camisola e comeou a acariciarlhe o seio.
- Eu amo voc! - quase gritou ela. - Eu amo voc e nada que voc fizer
vai me deixar assustada, porque voc  maravilhoso!
Em seguida, seus coraes comearam a bater um contra o outro e ele  
beijou-a como um conquistador que, depois de passar por tremendas 
dificuldades, saa vencedor.
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Mesmo assim, era muito gentil e Nathaly se rendeu completamente s 
carcias de seus lbios, de suas mos e de seu corpo.
Finalmente, o amor carregou-os para o cu repleto de estrelas, e Seldon e 
Nathaly sabiam que a nica coisa que importava, naquele momento, era que, 
como um homem e uma mulher, estavam unidos para toda a eternidade.

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Fim
